segunda-feira, 16 de maio de 2016

HERMÍNIO C. MIRANDA #MONTEIRO LOBATO E O PONTO-E-VÍRGULA

HERMÍNIO C. MIRANDA

Natural de Volta Redonda (RJ), Hermínio Corrêa de Miranda, ou Hermínio C. Miranda, como também ficou conhecido, nasceu em 5 de janeiro de 1920 e se tornou um dos mais respeitados pesquisadores e escritores espíritas. Por décadas deu sua colaboração à centenária revista “Reformador”, da Federação Espírita Brasileira, e ao “Serviço Espírita de Informações” (SEI), através de artigos sempre judiciosos e de estilo inconfundível. Em homenagem ao Prof. Hermínio, que fez sua passagem no dia 8 de julho, aos 93 anos de idade, no Rio de Janeiro, o SEI, ao invés do clássico obituário, decidiu republicar texto no qual o já saudoso professor, por ocasião dos 50 anos da desencarnação de Monteiro Lobato, relatou seus contatos com o famoso escritor, cujas linhas lhe inspiraram no labor da escrita, labor este que resultou numa vasta gama de artigos para a imprensa espírita e leiga e em mais de 40 livros publicados, dentre os quais figuram “As marcas do Cristo”, “Diálogo com as sombras”, “Diversidade dos carismas”, “A memória e o tempo” e o clássico “Nossos filhos são espíritos”.

A seguir, o memorável artigo do Prof. Hermínio C. Miranda, escrito com exclusividade para o SEI:


MONTEIRO LOBATO E O PONTO-E-VÍRGULA

Hermínio C. Miranda

Sou de uma geração que cresceu lendo Monteiro Lobato. Seus livros ajudaram a despertar o gosto pela leitura e, quem sabe, o estímulo para escrever.

Quando os gênios passam pelas nossas vidas, nunca mais seremos os mesmos.

No início de 1945, enchi-me de coragem e escrevi uma cartinha ingênua, na qual lhe pedia um autógrafo. Respondeu¬-me enviando reprodução de seu retrato pintado por J.U. Campos.

Anos mais tarde, mandei-lhe um escrito meu. Respondeu-me novamente. Sentia-se feliz por haver contribuído para nos ensinar a pensar e achava que, num país de ideias erradas, as minhas estavam certas. Aprovava, portanto, meus modestos sonhos de uma sociedade mais humana. Recomendava-me a leitura do livro Progresso e Pobreza, de Henry George, do qual me enviou um exemplar. O pensador americano propunha, entre outras coisas, que se tributasse não os que produzem, mas a terra ociosa. Era o precursor de uma reforma agrária inteligente, sem conflitos ou pressões sociais. Preferia acabar com a pobreza antes que ela surgisse. Outro sonhador, como nós.

Estava, no entanto, amargurado, indignado mesmo. Com o país, a política, a vida, a morte, tudo. Chegou a mudar-se temporariamente para a Argentina, onde esperava encontrar um pouco mais de sossego.

O pessimismo tornara-se a tônica de sua vida e, naturalmente, projetou sombras em sua carta de 20 de janeiro de 1946. Ao falar de minhas ideias, estimulava-me a continuar sonhando porque, mais tarde – acrescentava –, nem sono eu teria. “Esta noite – confessava – tive de tomar uma cápsula duma infâmia chamada Nambutal, ou coisa assim, para dormir alguma coisa – e se sonhei não me lembro. Amanheci tonto e embrutecido.”

Tinha, porém, suas alegrias no testemunho vivo de “suas crianças”, “filhos intelectuais”. “Dois milhões de livros, dois milhões de amigos” – escreveu na carta de 20 de março de 1945. Disse mesmo que poderia fazer um lindo livro com esses depoimentos e que eram especialmente comoventes os das meninas. Tudo o mais era desencanto e pessimismo. Nunca se recuperou da perda de seus dois filhos, Guilherme aos 26 e Edgard aos 32 anos de idade.

Quanto ao mais, contudo, Lobato encontrara no Espiritismo, senão o consolo para suas angustiadas amarguras, pelo menos a convicção de que a vida continua e que os filhos queridos e os amigos lá estariam na dimensão invisível à sua espera, quando chegasse sua vez de partir.

“A vida que anima meu corpo - lê¬-se em transcrição de Cavalheiro, vol. II, pág.259 - percebe as manobras do prisioneiro – alma – para fugir, e em desespero, agarra-o pelo rabo e puxa-o frenética e desesperadamente para dentro da prisão – o corpo.”

Mais adiante, zombando por antecipação de seus próprios necrológios, escreve Lobato: “Mas eu, o Ego que não morre, porque não pode morrer, porque nada morre, nem o mais miserável átomo, estarei a rir-me da inópia dos jornalistas; e “na rua”, livre da casa velha que já estava inabitável, assistirei à sua demolição lenta pelos pequeninos obreiros chamados Vermes, a fim de que com o material velho, o mestre¬-de-obras vida construa suas casas novas.”

“Minha ideia – expõe o escritor, adiante – é que morrer significa passar do estado sólido para o gasoso, como o bloco de gelo que com a mudança de temperatura derrete e se transforma em vapor. O vapor é invisível e tem propriedades totalmente diversas das do bloco de gelo, e no entanto é o próprio bloco de gelo reduzido a estado de vapor. E se resfriamos o ambiente onde está o vapor, o vapor invisível condensa-se, vira líquido e depois vira o mesmo gelo que era no começo da experiência. Eis a Reencarnação! Vapor condensado!”

À sua maneira peculiar, parecia estar, pacientemente, explicando a reencarnação à petulante e irreverente Emília.
“No dia 4 de julho de 1948 – conta Cavalheiro, pág. 272 – almoça em casa de Yan de Almeida Prado, com o Otales Marcondes e outros amigos.” Ao despedir-se do grupo, uma senhora perguntou-lhe se poderia visitá-lo no dia seguinte. “Amanhã, em minha casa? Não pode ser – respondeu. Encontrará apenas um cadáver.”

Acertou. Morreu às quatro horas da madrugada, aos 66 anos de idade. Dias antes dissera a um jornalista: “Meu cavalo está cansado, querendo cova, e o cavaleiro tem muita curiosidade em verificar, pessoalmente, se a morte é vírgula, ponto-e-vírgula ou ponto final.”

Há cinquenta anos, portanto, José Bento Monteiro Lobato conferiu a vida do lado de lá e viu que a morte é um mero ponto-e-vírgula. Mais cedo ou mais tarde, o vapor se condensa outra vez e a gente volta para dar continuidade às tarefas evolutivas.
Lemos, não obstante, na excelente biografia escrita por Edgard Cavalheiro (Monteiro Lobato – Vida e Obra, Cia Editora Nacional, 1956, São Paulo), o texto com o qual procura consolar a nora: “Não cultive tristezas – aconselha –, porque não vale a pena. Edgard não morreu. Foi promovido do estado sólido, que é estúpido, para o gasoso, muito mais interessante – e a estas horas há de estar lamentando a tolice dos que o choram.”

Só que, entre os que choravam estava ele próprio, o pai agoniado, cabisbaixo, silencioso, a caminhar pelas ruas mais quietas de São Paulo.

“A correspondência com (Godofredo) Rangel – escreve Cavalheiro, II vol. pág. 258 – após a publicação de A Barca de Gleyre – particularmente nos dois últimos anos de vida, deixa-nos a impressão de que o escritor não faz outra coisa senão preparar-se para a morte.”

Convencido da realidade espiritual, já não vivia, segundo Cavalheiro, a procurar “provas da sobrevivência em sessões espíritas”. Ainda questionava, porém, as entidades manifestantes, e não lhes permitia que lhe pregassem sermões. “Proponho perguntas curiosíssimas – explicou – e obtenho respostas preciosas.”

Encantara-se com “A Grande Síntese”, de Pietro Ubaldi. Apontava na excelente tradução do Dr. Guillon Ribeiro apenas um “defeito”: “excesso de bom português”.

Foi por esse tempo, ou mais precisamente, em 10 de novembro de 1947, cerca de oito meses antes de morrer, que escreveu para Afinal, Quem Somos? do amigo Pedro Granja, o conhecido prefácio que Edgard Cavalheiro caracteriza como síntese do que Lobato pensava do assunto. “É a sua ideia de Deus – escreve o biógrafo (vol. II, pág.258) –, aceitável pela ciência e muito lisonjeira para os espíritas.”

“Muito mais decente – comentava Lobato, alhures – o meu Deus que o de Kardec, que é o mesmo Jeová com uns enfeites novos – antropomorfíssimo puritano e exigidor de coisas.”

É possível que o seu Deus seja aceitável a certas áreas do pensamento científico, como informa Cavalheiro, mas dificilmente seria uma ideia “lisonjeira para os espíritas”. Na Doutrina Espírita, Deus é “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” e nada tem de antropomórfico. Tanto que, na primeira pergunta aos seus amigos espirituais, Kardec quis saber o “QUE” era Deus e não “QUEM”. Não nos esqueçamos, contudo, de que, para nos levar a um mínimo de compreensão do incompreensível, Jesus O chamou de Pai.

Apesar de me haver prevenido quanto à inconsistência dos sonhos, ele nunca deixou de sonhá-los. (E nem eu). Se algum dia se reencarnasse – declarou certa vez –, voltaria a fazer o que sempre gostou, ou seja, escrever para crianças. Também ele se sentia feliz junto aos pequeninos de que falou o Cristo. Escrever para os adultos, no seu entender, foi pura perda de tempo.
*
(Do SEI 1579, de 4/7/1998).

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Julho 2013 – no 2226

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