terça-feira, 17 de maio de 2016

FAMÍLIA E CASAMENTO

D. Villela



Fala-se, já há várias décadas, numa crise da família, entendida, neste caso, como a família nuclear tradicional, formada por um casal vivendo em companhia dos filhos, em uma residência. A menção à crise refere-se a uma suposta fragilidade desse modelo, que o exporia com certa frequência ao rompimento com a posterior integração de seus ex-membros a novos grupos familiares, o que a prática realmente mostra, sem, no entanto, a propalada intensidade da ocorrência, bem como sem que diminua a importância da família constituída em bases retas, de amor e respeito recíprocos e de compartilhamento de problemas e decisões, como espaço privilegiado para o fortalecimento de seus membros e para a melhor formação física e moral das crianças e jovens que a compõem.

Na tradição cristã, ao longo de muitos séculos, o casamento foi – e ainda é – considerado um sacramento, ou seja, um ato que conta com a intervenção divina e, portanto, não passível de revisão ou mudança, sendo, ainda, por pressão religiosa, legalmente indissolúvel, o que somente se modificou ao longo do século XX. Tendo¬-se em vista as condições em que, não raro, se constituíam as famílias no passado, isto é, com base em considerações econômicas ou sociais, não surpreende a presença de conflitos e sofrimentos no grupo familiar, bem como o expressivo número de uniões irregulares.

O progresso da legislação permitiu que em época recente os casamentos passassem a depender, essencialmente, da vontade do casal formalmente expressa por meio de um contrato ou simplesmente manifestada na opção de vida em comum, com ou sem a presença de filhos, as uniões estáveis, equiparadas a casamentos formais para fins previdenciários e de herança

 É, todavia, melhor para o casal que se decide pela formação de um novo lar a confirmação de tal atitude perante a lei humana, pois, como a Doutrina Espírita mostra claramente, nossas responsabilidades decorrem, antes de mais nada, dos compromissos que livre e pessoalmente firmamos com o próximo, com ou sem registros formais dos mesmos, e a vida em família figura entre os mais importantes dentre eles. A dissolução do vínculo familiar em decorrência de egoísmo, vício ou ilusão, conforme habitualmente observamos, não provém de alguma deficiência daquele modelo, que é de inspiração superior, mas de falhas do ser humano em evolução na Terra, que não consegue demonstrar o comprometimento, o esforço e, não raro, a renúncia que a lealdade aos laços de família requer como contrapartida das alegrias que ela proporciona.

As famílias terrenas, como igualmente mostram as obras espíritas, não reúnem apenas individualidades afins, mas também comparsas ou vítimas de antigos deslizes que cometemos e que voltam ao nosso convívio, beneficiados, tanto quanto nós, pelo esquecimento temporário do passado, para a necessária reaproximação à luz da fraternidade.

Na família não encontraremos, assim, uma paisagem florida de alegrias constantes, mas um valioso campo de trabalho e experimentação, no qual, mercê de nosso empenho e dedicação, poderemos colher excelentes frutos de renovação e paz, discernimento e esperança.

“O Evangelho segundo o Espiritismo” (capítulo 22, item 4).



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Maio 2013 – no 2224

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