quinta-feira, 31 de julho de 2014

O REMÉDIO IMPREVISTO

Neio Lúcio

O pequeno príncipe Julião andava doente e abatido.
Não brincava, não estudava, não comia.
Perdera o gosto de colher os pêssegos saborosos do pomar.
Esquecera a peteca e o cavalo.
Vivia tristonho e calado no quarto, esparramado numa espreguiçadeira.
Enquanto a mãezinha, aflita, se desvelava junto dele, o rei experimentava muitos médicos.
Os facultativos, porém, chegavam e saíam, sem resultados satisfatórios.
O menino sentia grande mal-estar. Quando se lhe aliviava a dor de cabeça, vinha-lhe a dor nos braços. Quando os braços melhoravam, as pernas se punham a doer.
O soberano, preocupado, fez convite público aos cientistas do país. Recompensaria nababescamente a quem lhe curasse o filho.
- Que todos saibam de minha disposição.
- Avisaremos a todos, majestade, - disse seu auxiliar.
Depois de muitos médicos famosos ensaiarem, embalde, apareceu um velhinho humilde que propôs ao monarca diferente medicação.
- Qual será o preço do tratamento ? perguntou o rei.
- Nada quero... respondeu o velhinho. Desejo apenas plena autoridade sobre seu filho.
O pai aceitou as condições e, no dia imediato, o menino foi entregue ao ancião.
O sábio anônimo conduziu-o a pequeno trato de terra e recomendou-lhe arrancasse a erva daninha que ameaçava um tomateiro.
- Vamos meu filho! Arranque a erva daninha.
- Não posso! Estou doente! — gritou o menino.
O velhinho convenceu-o, sem impaciência, de que o esforço era necessário e, em minutos breves, ambos libertavam as plantas da erva invasora. Antes do meio-dia, Julião disse ao velho que sentia fome. O sábio humilde sorriu, contente, enxugou-lhe o suor copioso e levou-o a almoçar.
- Sirva-se à vontade, Julião, - disse o velho
O jovem devorou a sopa e as frutas, gostosamente.
Após ligeiro descanso, voltaram a trabalhar.
No dia seguinte, o ancião levou o príncipe a servir na construção de pequena parede.
- Vamos levantar uma parede disse o velho a Julião.
- Eu não sei.
- Quem não sabe aprende, Julião, respondeu o velho.
À tarde sua fome era maior.
Novo programa foi traçado para Julião. Após o banho matinal, cavava a terra. Almoçava e repousava. Ao entardecer, estudava e a noitinha, brincava e passeava com jovens da mesma idade.
Transcorridos dois meses, Julião era restituído à autoridade paternal, rosado, robusto e feliz. Ardia, agora, em desejos de ser útil, ansioso por fazer algo de bom. Descobrira, enfim, que o serviço para o bem é a mais rica fonte de saúde.
O rei, muito satisfeito, tentou recompensar o velhinho.
Todavia, o ancião esquivou-se, acrescentando:
- Grande soberano, o maior salário de um homem reside na execução da Vontade de Deus, através do trabalho digno. Ensina a glória do serviço aos teus filhos e tutelados e o teu reino será abençoado, forte e feliz.
Dito isto, desapareceu na multidão e ninguém mais o viu.

(Do livro "A Vida Fala III", pelo Espírito Neio Lúcio, Francisco C. Xavier)

ANTES, PORÉM...



Você pede melhoras de saúde.
Antes, porém, socorra o enfermo em condições mais graves.
Você pede em favor do seu filho.
Antes, porém, proteja a criança alheia em necessidade maior.
Você pede providência determinada.
Antes, porém, alivie a preocupação de outra pessoa, em prova mais contundente que a sua.
Você pede concurso fraterno contra a obsessão que o persegue.
Antes, porém, estenda as mãos ao obsidiado que sofre sem os recursos de que você já dispõe.
Você pede perdão pela falta cometida.
Antes, porém, desculpe incondicionalmente aqueles que lhe feriram o coração.
Você pede apoio à existência.
Antes, porém, seja consolo e refúgio para o irmão que chora em seu caminho.
Você pede felicidade.
Antes, porém, semeie nalgum gesto simples de amor a alegria do próximo.
Você pede solução a esse ou aquele problema.
Antes, porém, busque suprimir essa ou aquela pequenina dificuldade dos semelhantes.
Você pede cooperação.
Antes, porém, colabore a benefício dos que suam e gemem na retaguarda.
Você pede a assistência dos bons espíritos.
Antes, porém, seja você mesmo um espírito bom, ajudando aos outros.
Toda solicitação assemelha-se, de algum modo, à ordem de pagamento, que, para ser atendida, reclama crédito.
A casa não se equilibra sem alicerce.
Uma fonte ampara outra.
Se queremos auxílio, aprendamos a auxiliar.

André  Luiz
(De “Ideal Espírita”, de Francisco Cândido Xavier – Autores diversos)

O Escudo



"Embraçando, sobretudo, o escudo da fé, com o qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno." - Paulo. (EFÉSIOS, 6:16.)

Ninguém se decide à luta sem aparelhamento necessário.

Não nos referimos aqui aos choques sanguinolentos.

Tomemos, para exemplificar, as realizações econômicas. Quem garantirá êxito à produção, sem articular elementos básicos, imprescindíveis à indústria? A agricultura requisita instrumentos do campo, a fábrica pede maquinaria adequada.

Na batalha de cada um, é também indispensável a preparação de sentimentos. Requere-se intenso trabalho de semeadura, de cuidado, esforço próprio e disciplina.

Paulo de Tarso, que conheceu tão profundamente os assédios do mal, que lhe suportou as investidas permanentes, dentro e fora dele mesmo, recomendou usemos o escudo da fé, acima de todos os elementos da defensiva.

Somente a confiança no Poder Maior, na Justiça Vitoriosa, na Sabedoria Divina consegue anular os dardos invisíveis, inflamados no veneno que intoxica os corações. Todo trabalhador sincero do Cristo movimenta-se na frente de longa e porfiada luta na Terra. Golpes da sombra e estiletes da incompreensão cercam-no em todos os lugares. E, se a bondade conforta e a esperança ameniza, é imprescindível não esquecer que só a fé representa escudo bastante forte para conservar o coração imune das trevas.

XAVIER, Francisco Cândido. Vinha de Luz. Pelo Espírito Emmanuel. 14.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB, 1996. Capítulo 141.