segunda-feira, 25 de abril de 2016

TRANSIÇÃO

TRANSIÇÃO

D. Villela

Um conhecido historiador moderno, referindo-se ao século passado, chamou-o de A Era dos Extremos, acrescentando ainda que ele fora breve, isto é, que como período histórico coerente sua duração tinha sido inferior aos seus limites cronológicos, iniciando-se com a Primeira Grande Guerra (1914) e terminando com o colapso da URSS (1991). Contudo, ao longo dele, acontecimentos dramáticos atingiram a humanidade, que jamais, em qualquer época anterior, experimentou mudanças tão profundas e tão rápidas.

Com efeito, dois conflitos mundiais, que deixaram milhões de vítimas, a Grande Depressão de 1929-1932, que afetou a economia de todos os povos, o surgimento das armas atômicas, que tornaram impossível uma nova guerra em grande escala (pois não haveria vencedores), a Guerra  Fria, como pesadelo constante, a drástica redução do número de pessoas morando no campo e vivendo da agricultura, a comunicação eletrônica e a economia transnacional, que ignora as fronteiras dos antigos Estados, são fatores que ocorreram durante o breve século XX e alteraram radicalmente a vida humana em todos os quadrantes da Terra, sem esquecermos as primeiras tentativas de organização, em nível supranacional (ONU, União Europeia), a preocupação com a Ecologia e a identificação e valorização de líderes autênticos, sobretudo no campo religioso (Madre Tereza de Calcutá, Dalai Lama).

A Doutrina Espírita, já na Codificação, informou que estávamos ingressando em uma época de transição, quando o velho modelo de convivência baseado no egoísmo e na ilusão seria substituído por um novo, em que o amor ao próximo e o conhecimento das realidades espirituais governariam as instituições e o relacionamento humanos, alteração essa que, compreensivelmente, não se daria de forma pacífica, assinalando-se, ao contrário, por grande turbulência moral  como observamos em nossos dias  mas não por cataclismos e outras convulsões geológicas, como supunham algumas correntes religiosas que também falam de uma era nova, de fraternidade e paz. Na verdade, o progresso científico, possibilitando um conhecimento cada vez melhor da ordem natural, tornou absurdas quaisquer especulações nesse sentido.

É bem conhecida a história na qual uma pessoa se dirige a dois operários que estão em um canteiro de obras, indagando sobre a tarefa que realizavam, respondendo um deles, simplesmente, que empilhava tijolos para fazer uma parede, ao passo que o outro  que fazia a mesma coisa  informou estar construindo uma catedral. As duas respostas eram verdadeiras, mas o segundo, por sua atitude, é apresentado como modelo do trabalhador que realiza atividade específica, possuindo, no entanto, a visão de conjunto das obras de que participa. A experiência mostra que, habitualmente, tais pessoas realizam melhor a sua parte, oferecendo ainda, não raro, sugestões para o aperfeiçoamento do trabalho.

O bem é sempre o bem, proporcionando dignidade, alegria e paz a seus autores, no entanto, se pudermos dispor de visão mais ampla, que inclua, além das consequências imediatas de nossa ação, seus desdobramentos e finalidade dentro de um panorama mais vasto, estaremos certamente habilitados a agir como o segundo trabalhador da história.

Acrescente-se, por fim, que no caso do Espiritismo, a nossa catedral é ainda maior pois inclui fatores espirituais que ampliam extraordinariamente suas dimensões, permitindo-nos associar a alegria do colaborador anônimo das grandes construções com a percepção de sua importância, consciência esta capaz de nos sustentar nos momentos de cansaço ou dificuldade maior, habilitando-nos a perseverar em nosso esforço e, mesmo em tais ocasiões, produzir o melhor.

A Gênese (capítulo 9, itens 11 a 14).


Conselho Espírita Internacional
Boletim SEI: E-mail: boletimsei@gmail.com
Sábado, 3/11/2007  no 2066

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