sexta-feira, 22 de abril de 2016

SEGUIR UM IDEAL

SEGUIR UM IDEAL

Giovanni Scognamillo

Franz Liszt (1811-1886) teve três filhos naturais: Cósima, Daniel (que desencarnou aos 20 anos) e Blandina, e quando nasceu a primeira neta, filha de Cósima, quis ele homenagear a memória do filho ausente, dando à nascitura o nome Daniela, no que foi aplaudido pelos amigos e familiares. Nada mais normal, essa manifestação de carinho ao filho, então domiciliado no Plano da Verdade, de onde assiste àquela prova de amor. Os chamados mortos se sentem felizes quando nós, os vivos, nos lembramos deles e lhes rendemos homenagens através dos pensamentos edificantes, com saudade, mas sem emoções perturbadoras.

Quando da morte de Daniel, estando o compositor reunido com um grupo de amigos, de almas afins que lhe vieram trazer calor humano e ajuda na hora difícil, a conversação pendeu para uma análise dos destinos e as suas complexidades. Em dado momento, um daqueles presentes à tertúlia, pede a palavra para dizer: tenho a impressão nítida de que não estamos na Terra para ocupar um simples lugar, mas para servir a uma ideia e seguir um ideal, como também concluir uma obra. Esta a destinação valiosa e útil que nos faz nascer, viver e que nos fará morrer. E vale lembrar aqui o que está escrito no dólmen de Allan Kardec, no cemitério do Père-Lachaise, em Paris: nascer, morrer, renascer ainda e progredir sempre, tal é a lei. Aquelas palavras foram ditas pelo amigo de Liszt em data anterior (1860) à inauguração do monumento em memória do Codificador e se referem igualmente à suprema finalidade da reencarnação, sem a qual o progresso e a evolução dos espíritos estariam comprometidos. Também vale como destaque a verdade fundamental anunciada por Kardec quanto à universalidade dos ensinos dos Espíritos.

Franz Liszt, engrandecido pela dor bem suportada, descobre a música sacra e a música com temática relativa à morte quando passa a compor a Gôndola Fúnebre pois, segundo dizia: morrer é como um navegar nos altos e baixos das ondas, enquanto a nave transporta a outros portos os passageiros. Portos ainda desconhecidos, mas que logo conheceremos, e onde não falta a surpresa ante o insondável destino dos passageiros. E aí temos uma página com leve sabor de mensagem mediúnica, de alerta vindo do Mais Alto em linha direta para as nossas consciências. E ainda, um estímulo para que persistamos nas obras do amor, aprendendo e amando, servindo e desculpando.

Veremos, a seguir, que o acaso não produz nada de significativo e que todos os eventos, inteligentes ou não, estão subordinados à Vontade Superior que a tudo preside, orienta e mantém sob rigoroso controle para evitar que o homem, dotado de razão e liberdade, não venha a se constituir em ameaça à vida planetária com os seus desmandos e equívocos.

O acaso de fato não existe e a disposição de Liszt em compor a Gôndola tinha um fundamento, um objetivo, uma causa que agora será revelada. Estava ele dando os toques finais na obra quando chega um mensageiro anunciando a desencarnação de Richard Wagner (1813-1883), aquele que fora seu maior e mais dedicado amigo. Os familiares se agrupam, os companheiros também para dar sustentação moral ao musicista ante o ocorrido. Dão a notícia e Liszt não esboça reação alguma, continuando a escrever. Repetem a notícia, julgando-o surdo. Ele mantém a calma, a indiferença e somente quando coloca a última nota musical na pauta vira-se para os amigos e parentes, perguntando sem afetação: Wagner morreu? E por que não? Hoje é ele, amanhã serei eu. Qual a novidade? Morrer parece-me mais simples que viver. A morte é a nossa libertação, é livrar-se de um jugo. E assim, aqueles que vieram consolar foram consolados, vieram com o propósito de amparar e foram amparados pelo inspirado gênio da música.

Lamentamos que Liszt não tenha se ajuntado ao grupo de Kardec naqueles tempos luminosos da Codificação, embora tenha vivido todo aquele áureo período.

A sua jornada terrena prossegue e continuaremos a caminhar com ele, analisando e extraindo do seu rico viver lições e experiências que enriquecem a bibliografia e a fenomenologia espíritas.


Conselho Espírita Internacional
Boletim SEI: E-mail: boletimsei@gmail.com
Sábado, 9/10/2004 - no 1906

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