sábado, 11 de junho de 2016

ESCÂNDALOS

_Bianca Pinheiro_


É importante que possamos refletir sobre o que foi dito pelo Mestre Jesus, uma vez que ele é o guia e o modelo a ser seguido, como nos informaram os Espíritos, na questão 625 de O Livro dos Espíritos. Assim, nada mais natural que buscarmos ampliar nosso entendimento através de uma leitura mais atenta das lições contidas em O Evangelho segundo o Espiritismo, que trazem passagens do Novo Testamento e os esclarecimentos fornecidos pelos benfeitores espirituais encarregados da Codificação.

Dentre essas passagens, existe uma que trata dos escândalos e está narrada em Mateus, capítulo 18. É uma lição até bem conhecida e relativamente comentada, mas não custa nada examiná-la um pouco mais.

Destacamos os seguintes trechos: [...] Ai do mundo por causa dos escândalos; pois que é necessário que venham escândalos; mas, ai do homem por quem o escândalo venha... Se a vossa mão ou o vosso pé vos é objeto de escândalo, cortai-os e lançai-os longe de vós; melhor será para vós que entreis na vida tendo um só pé ou uma só mão do que terdes dois e serdes lançados no fogo eterno...

Começaremos pela análise do termo escândalos. Na acepção comum, podemos dizer que se refere a alguma notícia de caráter depreciativo, que veio a público, tornando-se conhecida, dando margem a comentários, em geral negativos. Está diretamente relacionada a uma conduta reprovável que se torna objeto de atenção da sociedade. Assim, se o fato não se tornar público, não será um escândalo, uma vez que a sociedade não terá conhecimento dele.

No entanto, na acepção moral, como nos explicam os Espíritos, escândalo seria toda a conduta contrária à Lei de Deus, mesmo que não se torne pública. Tal entendimento está de acordo com o significado da palavra utilizada por Jesus, que deriva do grego kándalon, cuja tradução é pedra de tropeço ou armadilha para fazer alguém cair, como explica Carlos Torres Pastorino, na obra Sabedoria do Evangelho.

Então podemos considerar escândalo como qualquer ato, palavra ou pensamento que possa nos desviar das leis naturais (Leis de Deus) ou que faça com que um companheiro se desvie do bom caminho por nossa culpa, independentemente da notoriedade que o fato alcance.

Percebemos, com isso, o alcance da lição de Jesus, ao reprovar os escândalos e ao nos chamar a atenção para que evitássemos proceder em desacordo com as Leis Divinas, pois aquele que se desvia deve prestar contas, ou seja, deve reparar o erro cometido. Pensando bem, não poderia ser de outro modo, pois se causamos o mal é porque ainda não estamos agindo com Amor, Justiça e Caridade e, por isso, devemos passar por novas vivências para aprender a lição.

O Mestre menciona que os escândalos ainda seriam necessários, mas destaca que são coitados aqueles por quem o escândalo venha, esclarecendo que seria melhor ter partes do corpo faltando do que entrar na vida com elas e ser motivo de tropeço.

Vamos entender isso: ainda somos espíritos imaturos e que não conseguimos agir plenamente de acordo com as Leis de Deus, pois, mesmo tendo a vontade de praticar o bem, de ser seguidor de Jesus, ainda nos equivocamos e tropeçamos ou fazemos os outros caírem. Observamos isso na inveja, ciúme, egoísmo, raiva, irritação, intolerância, impaciência, mágoa, desejo de vingança, arrogância, prepotência, maledicência e tantas outras formas de atuar que ainda se fazem presentes em nossas vidas, apesar de nossos esforços em combatê-las, sem contar com aqueles irmãozinhos que ainda se comprazem em fazer o mal, que ainda não despertaram para o amor e que estão convivendo conosco na Terra.

Se assim é a nossa sociedade, então percebemos que o tropeço é uma consequência natural do nosso grau de evolução, porque ainda erramos muito nas nossas escolhas, nos desviando da lei de Deus e causando o mal. Por isso Jesus empregou o termo grego anágkê, que significa inevitável, sendo certo que, à medida que formos evoluindo em moralidade, esse inevitável deixará de existir, pois não causar o mal será algo plenamente possível.

Contudo, todo desvio da lei natural deve ser reparado e, assim sendo, teremos que vivenciar novas experiências para corrigir o que fizemos de errado. Como esse processo de aprendizagem ainda é, para nós, uma dificuldade, muitas vezes encarada como sofrimento, a reparação do desvio moral torna-se um mecanismo penoso quando, na verdade, basta mudar o foco e passar a encarar a dificuldade como a abençoada oportunidade de refazimento. Para facilitar o entendimento, vai uma comparação bem simples, mas bastante ilustrativa: se não gosto de chuchu, mas tenho que comer, melhor encarar com alegria, ânimo e engolir logo, do que ficar chorando e reclamando de frente para o prato!

E, para encerrar, lembremos que quando Jesus disse que seria melhor cortar um membro do que entrar na vida com ele e ser ele o objeto de tropeço, essa afirmativa não deve ser entendida ao pé da letra. Isto porque, citando um exemplo, de nada adianta não ter as mãos, para não roubar e continuar a praticar o ato sob outras formas. O que devemos combater é a tendência equivocada, viciosa que está dentro de nós e que se manifesta em nossos atos, palavras e pensamentos. É o chamado bom combate, que se trava portas adentro de nosso ser, na calada de nossos pensamentos, quando nos autoanalisamos. Por isso, sem autoconhecimento e reforma íntima não há progresso.

Então, que estejamos vigilantes para evitar ao máximo os tropeços e, quando eles ocorrerem, que possamos encarar a reparação como a consequência natural e necessária em nosso processo de aprendizagem, pois, como destacou Chico Xavier: Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim.

Que Deus nos abençoe em nossa jornada!


SERVIÇO ESPÍRITA DE INFORMAÇÕES
Boletim SEI: E-mail: boletimsei@gmail.com
Edição 2252 Setembro 2015

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