quinta-feira, 9 de junho de 2016

DOIS SENHORES

D. Villela

Nenhum servo pode servir a dois senhores... Não podeis servir a Deus e às riquezas  afirmou Jesus (Lucas, 16: 13), que em outras passagens do Evangelho nos advertiu igualmente quanto ao apego às posses materiais.

É interessante a trajetória da riqueza na tradição cristã, pois sabe-se que entre os primeiros seguidores da Boa Nova, pertencentes em sua maioria às camadas mais pobres da população, havia também pessoas das classes mais elevadas, detentoras de recursos expressivos, que eram fraternalmente aceitas nas comunidades cristãs e integradas ao trabalho que se desenvolvia a partir delas. Todos sabemos, contudo, que a posse de recursos maiores sempre foi vista com preocupação pelos orientadores religiosos devido aos abusos e excessos a que, não raro, dá lugar. O dinheiro tanto pode comprar o medicamento que salva como a consciência do administrador invigilante que, subornado, relaxa medidas que determinada situação lhe imporia adotar. É claro que a moeda em si mesma é neutra, como, aliás, todos os dons da vida, dependendo do emprego que se lhes dê os ganhos ou as perdas espirituais.

A interpretação literal de algumas passagens evangélicas em que a primazia concedida ao dinheiro é criticada por Jesus, levou, nos séculos seguintes, a uma condenação absoluta da riqueza, situação esta que perdurou durante todo o período medieval, somente vindo a modificar-se a partir dos séculos XV e XVI, sobretudo por uma nova visão, introduzida pelos líderes protestantes, segundo a qual o dinheiro foi reabilitado, passando mesmo a representar uma bênção de Deus.

A Doutrina Espírita estuda essa questão, mostrando que a riqueza que se associa à responsabilidade e aos valores humanos na multiplicação do trabalho e no incentivo ao progresso constitui certamente campo de ação com Jesus, oferecendo aos seus detentores transitórios valiosas oportunidades para a expansão e o fortalecimento do bem, a cujo serviço, neste caso, se colocam os detentores de recursos mais dilatados.

É necessário, assim, entender corretamente o ensino relativo aos dois senhores que se refere à primazia, subordinação e não à exclusão ou distanciamento. Quem se disponha ao serviço do bem coloca o restante, inclusive a riqueza, sob o referencial deste, enquanto quem se coloca a serviço da riqueza a tem como principal referência, inclusive para o trato com a fé.

É oportuno lembrar, por fim, que, além de Deus e das riquezas, o poder e o destaque, as convenções e até a aparência pessoal representam também senhores a cujo serviço muitos se colocam, fazendo escolha infeliz, a ser abandonada mais tarde quando as decepções e a maturidade permitem perceber qual a única opção correta: reconhecer como Senhor o Pai amantíssimo, cujas determinações realmente libertam e felicitam.

O Evangelho segundo o Espiritismo (capítulo 16, item 1).

SERVIÇO ESPÍRITA DE INFORMAÇÕES
Boletim SEI: E-mail: boletimsei@gmail.com
Edição 2257  Fevereiro 2016

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