terça-feira, 10 de março de 2009

3 - O Livro dos Espíritos


  1. Espiritismo e Espiritualismo

1. Definições e Conceitos:

    1. Espiritismo: "O Espiritismo é ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática ele consiste nas relações que se estabelecem entre nós e os Espíritos; como Filosofia, compreende todas as conseqüências morais que dimanam dessas mesmas relações."

Podemos defini-lo assim:

"O Espiritismo é uma ciência que trata da natureza, origem e destino dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal." 1

    1. Espiritualismo: "Doutrina que admite, quer quanto aos fenômenos naturais, quer quanto aos valores morais, a independência e o primado do Espírito com relação às condições materiais, afirmando que os primeiros constituem manifestações de forças anímicas ou vitais, e os segundos criações de um ser superior ou de um poder natural e eterno, inerente ao homem." 2 Espiritualista – partidário ou adepto:
    2. Materialismo: "Tendência, atitude ou doutrina que admite ser a matéria, concebida segundo o desenvolvimento paralelo das ciências, ou que as chamadas condições concretas materiais são suficientes para explicar todos os fenômenos que se apresentam à investigação inclusive os fenômenos mentais, sociais ou históricos."

Materialista – partidário ou adepto. 2

2. Por que criar-se o termo "Espiritismo" para substituir "Espiritualismo", nome comum, conhecido, já existente e compreendido por todos?

Exatamente porque "Espiritualismo" tem sentido determinado. A Academia de França referencia-o como: "Espiritualista/Espiritualismo – aquele ou aquela pessoa cuja doutrina é oposta ao Materialismo".

Incluem-se portanto nestes termos, todas as religiões e todos aqueles que crêem existir no homem, algo além da matéria. Há ainda hoje, e já havia naquele tempo, vasta literatura onde o autor tecia comentários, elaborava matéria, criava textos, sob o ponto de vista espiritualista. Exemplo – a reencarnação não é peculiar só ao Espiritismo – era ponto fundamental da doutrina druídica. Antes do Espiritismo, contemporâneo a ele ou pós Espiritismo muitos autores usaram e usam essa idéia, sem que por isso suas obras se constituam como espíritas. Ilustres filósofos como Dupont de Nemours, Charles Fourrier, Jean Reynaud, Benjamin Franklin, Sra. Beecher Stohe com "A Cabana do Pai Tomás", escritores, poetas, romancistas, usam em seus temas e enredos, idéias espiritualistas onde nenhuma concordância as liga ao Espiritismo.

Recorde-se discurso feito no Senado por S. Eminência Cardeal Donnet, de onde destaca-se a frase: "Mas hoje como outrora, é certo dizer que, no gênero humano, o Espiritualismo é representado pelo Cristianismo."

A frase e o vocábulo usado pelo orador têm sentido verdadeiro – o Cristianismo é uma doutrina espiritualista. Não podemos porém entender, que o ilustre prelado tenha empregado o termo com o sentido de manifestação de Espíritos.

Estes, entre outros fatos, reforçam, esclarecem a necessidade da criação de um vocábulo, que com clareza defina os propósitos, objetivos, fins evitando confusões, ambigüidades, sentido ou entendimento múltiplo.

Ainda, a criação desse termo próprio, evitaria adaptação que as traduções certamente fariam. No hebraico, por exemplo, uma mesma palavra era usada para significar "dia" e "período". Nas traduções da "Gênesis", o sentido dado para a formação da Terra, recebe anátema, reprovação e provas contrárias, uma vez que a Ciência demonstra impossível essa formação em seis dias ou seis vezes vinte e quatro horas.

Mesmo que os Espíritos não existissem, fossem quimera, invenção, havia utilidade de um termo que referenciasse. Tanto as falsas idéias como as verdadeiras, devem ter palavras próprias que as indique. Hoje, é contínua a criação de termos para designar o conhecimento específico.

Assim – Espiritualismo – Espiritualista – têm significados próprios. Aplicá-los ao Espiritismo seria multiplicar duplicidade de sentido, espiritualismo é realmente, oposto a materialismo: qualquer que acredite haver algo além da matéria é espiritualista, mas não se segue que seja espírita.

Essas palavras são de origem inglesa; foram empregadas também nos Estados Unidos quando começaram surgir as manifestações dos Espíritos. Num começo e por algum tempo, também na França as usou. Logo, porém, notando-se a impropriedade..."adotei o termo" Espírita"e "Espiritismo", porque eles exprimem, sem equívoco, as idéias relativas aos Espíritos. Todo espírita é necessariamente espiritualista, mas nem todo espiritualista e espírita". 1

"Diremos, portanto, que a Doutrina Espírita ou o Espiritismo, tem por principio as relações do mundo material com os Espíritos ou seres do mundo invisível. Os adeptos do Espiritismo serão espíritos ou se o quiserem espiritistas".

"O Livro dos Espíritos" contém a Doutrina Espírita. Como generalidade liga-se ao Espiritualismo, razão porque traz sob seu título as palavras "Filosofia Espiritualista”. 4

Ao ter esse cuidado, ao despertar e perceber essas implicações e detalhes, decorrentes do bom senso, das precauções de Allan Kardec, três situações se nos destacam como muito importantes:

  1. ) Ao ordenar, codificar a Doutrina Espírita, nada foi imaginado, visto, observado e tiradas conclusões. Não se partiu da hipótese dos Espíritos para explicar os fenômenos. Ao contrário – dos fenômenos como efeito, chegou-se aos Espíritos, como causa, pela observação. "Apliquei a essa nova Ciência, como até então o tinha feito, o método da experimentação; nunca formulei teorias pré-concebidas; observava atentamente, comparava, deduzia conseqüências; dos efeitos procurava remontar às causas pela dedução, pelo encadeamento lógico dos fatos, não admitindo como válida uma explicação, senão quando ela podia resolver todas as dificuldades da questão." 3

b. ) ..."Assim nem somos o seu criador, nem o seu inventor..." 5

c. ) "Para tornar o entendimento mais fácil é Doutrina Espírita, as proposições formuladas em "O Livro dos Espíritos"publicado em 1857 e que ademais está desenvolvida em outras obras fundamentais cujo resumo, faz-se a seguir:

  1. O homem possui uma alma ou Espírito, principio inteligente, no qual residem o pensamento, a verdade, o senso moral, e do qual o corpo não é senão o invólucro material. O Espírito é o ser principal, preexistente e sobrevivente ao corpo, que não passa de acessório temporário.

Quer durante a vida carnal, quer depois de a ter deixado,o Espírito é revestido de um corpo fluídico ou perispírito, que reproduz a forma do corpo material.

  1. O Espírito é imortal; só o corpo é perecível.
  2. Desprendidos do corpo carnal, os Espíritos constituem o mundo invisível ou espiritual, que nos rodeia e em cujo meio vivemos.

As transformações fluídicas produzem imagens e objetos tão reais para os Espíritos, eles próprios fluídicos, quanto o são as imagens e os objetos terrestres para os homens, que são materiais. Tudo é relativo em cada um desses dois mundos. (Vide a Gênese Segundo o Espiritismo, capitulo dos fluidos e das criações fluídicas).

  1. A morte do corpo nada muda à natureza do Espírito, que conserva as aptidões intelectuais e morais adquiridas durante a vida terrestre.
  2. O Espírito leva em si os elementos de sua felicidade ou de sua infelicidade; é feliz ou infeliz em razão de seu grau de depuração moral; sofre as suas próprias imperfeições, cujas conseqüências morais, sem que a punção seja uma condenação especial e individual.

A infelicidade do homem na terra provém da inobservância das leis divinas. Quando conformar os seus atos e as suas instituições sociais a essas leis, será tão feliz quanto o comporta a sua natureza corporal.

  1. Nada do que o homem adquire durante a vida terrena em conhecimentos e perfeições morais para ele é perdido; ele é, na vida futura, aquilo que realizou na vida presente.
  2. O progresso é a lei universal, em virtude da qual o Espírito progride indefinidamente.
  3. Os Espíritos estão em meio a nós; rodeiam-nos, vêem-nos, escutam-nos e participam, em certa medida, das ações dos homens.
  4. Sendo apenas as almas dos homens, os Espíritos são encontrados em todos os graus de saber e de ignorância, de bondade e de perversidade que existem na Terra.
  5. Segundo a crença vulgar, o céu e o inferno são lugares circunscritos de recompensas e punições. Segundo o Espiritismo, levando os Espíritos em si mesmos os elementos de sua felicidade ou de seus sofrimentos, são felizes ou infelizes em qualquer parte onde se encontrem; as palavras céu e inferno não passam de figuras que caracterizam um estado de felicidade ou de desgraça.

Há, por assim dizer, tantos graus entre os Espíritos quantas as nuanças nas aptidões intelectuais e morais. Não obstante, se considerarem os caracteres mais marcantes, podem ser agrupados em nove classes ou categorias principais, que se podem subdividir ao infinito, sem que essa classificação nada tenha de absoluto. (Livro dos Espíritos; Liv. II, Cap. I, n. 100, Escala espírita).

A medida que os Espíritos avançam na perfeição, habitam mundos cada vez mais adiantados fisicamente e moralmente. Sem dúvida é o que entendia Jesus por essas palavras: "Na casa de meu Pai há muitas moradas". (Vide Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. III).

  1. Os Espíritos podem manifestar-se aos homens, de diversas maneiras: pela inspiração, pela palavra, pela vista, pela escrita, etc.

É erro crer que os Espíritos tenham a ciência infusa: seu saber, no espaço como na terra, está subordinado ao seu grau de adiantamento, e os há que, sobre certas coisas, sabem menos que os homens. Suas comunicações estão em relação com os seus conhecimentos e, por isto mesmo, não poderiam ser infalíveis. O pensamento do Espírito pode, além disso, ser alterado pelo meio que atravessa para se manifestar.

Aos que perguntam para que servem as comunicações dos Espíritos, desde que não sabem mais que os homens, responde-se, inicialmente, que servem para provar que os Espíritos existem e, por conseqüência, a imortalidade da alma; em segundo lugar, para nos ensinar onde se acham, o que fazem, em que condições se é feliz ou infeliz na vida futura; em terceiro lugar, para destruir os preconceitos vulgares sobre a natureza dos Espíritos e o estado das almas após a morte, coisas estas que não seriam sabidas sem a comunicação com o mundo invisível.

  1. As comunicações dos Espíritos são opiniões pessoais, que não devem ser aceitas cegamente. Em nenhuma circunstancia deve o homem desprezar seu próprio julgamento e seu livre arbítrio. Seria dar prova de ignorância e de leviandade aceitar como verdades absolutas tudo quanto vem dos Espíritos; eles dizem o que sabem. Cabe-nos submeter seus ensinamentos ao controle da lógica e da razão.
  2. Sendo as comunicações a conseqüência do incessante contato dos Espíritos e dos homens, elas se deram em todos os tempos; estão na ordem das leis da Natureza e nada têm de miraculoso, seja qual for a forma sob a qual se apresentam. Pondo em contato o mundo material e o espiritual, essas comunicações tendeu a elevar o homem, provando-lhe que a Terra não é para ele nem o começo, nem o fim de todas as coisas, e que ele tem outros destinos.
  3. Os seres designados sob o nome de anjos ou de demônios não são criações especiais, distintas da humanidade. Os anjos são Espíritos saídos da humanidade e chegados à perfeição; os demônios são Espíritos ainda imperfeitos, mas que melhorarão.

Seria contrario à injustiça e à bondade de Deus ter criado seres perpetuamente votados ao mal, incapazes de voltar ao bem, e outros privilegiados, isentos de qualquer trabalho para chegar à perfeição e à felicidade.

Segundo o Espiritismo, Deus não tem favores nem privilégios para nenhuma de suas criaturas; todos os Espíritos têm um mesmo ponto de partida e a mesma rota a percorrer, para chegar pelo trabalho à perfeição e à felicidade. Uns chegaram: são os anjos ou puros Espíritos; outros ainda estão para trás: são os Espíritos imperfeitos. (Vide A Gênese, capitulo dos Anjos e dos Demônios).

  1. O Espiritismo não admite os milagres, no sentido teológico da palavra, visto como, segundo ele, nada se realiza fora das leis da Natureza. Certos fatos, supondo-os autênticos, só foram reputados miraculosos porque se ignoravam as suas causas naturais. O caráter do milagre é ser excepcional e insólito. Quando um fato se reproduz espontaneamente ou facultativamente, é que está submetido a uma lei, e então já não é um milagre. Os fenômenos de dupla vista, de aparições, de presciência, de curas pela imposição das mãos, e todos os efeitos designados sob o nome de manifestações físicas estão neste caso. (Vide, para o desenvolvimento completo desta questão, a segunda parte da Gênese, os Milagres e as Predições segundo o espiritismo).
  2. Todas as faculdades intelectuais e morais tem sua fonte no principio espiritual, e não no principio material.
  3. Depurando-se, o Espírito do homem tende a aproximar-se da divindade, princípio e fim de todas as coisas.
  4. A alma humana, emanação divina traz em si o germe ou princípio do bem, que é seu objetivo final, que deve fazê-la triunfar das imperfeições inerentes ao seu estado de inferioridade na Terra.
  5. Tudo o que tende a elevar o homem, a desprender sua alma dos braços da matéria, seja sob a forma filosófica ou seja sob a religiosa, é um elemento de progresso que o aproxima do bem, ajudando-o a triunfar de seus maus instintos.

Todas as religiões conduzem a esse objetivo, por meios mais ou menos eficazes e racionais, conforme o grau de adiantamento dos homens, para o uso dos quais elas foram feitas.

Justifica-se, portanto, a identidade do Espiritismo, como ciência, filosofia e religião que cumprindo a promessa de Jesus, renova ao homem seu convite de Amor.

Bibliografia

  1. "O que é o Espiritismo" – Allan Kardec - pág. 08 e 24
  2. "Dicionário da Língua Portuguesa" – Aurélio - pág. 270- 422
  3. "O principiante espirita" – Allan Kardec – Cáp. I
  4. "O Livro dos Espíritos" – Allan Kardec – Introdução
  5. "Revista Espírita" – Allan Kardec – 1869 - abril e 1860 - maio

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II – Alma – Principio Vital e Fluido Vital

Leda Marques Bighetti

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