domingo, 25 de setembro de 2016

AS PORTAS DO CORAÇÃO

José Fernando Iasbech

Aproximadamente quinze horas. Meados de dezembro. A professora de piano, junto com seus alunos, encontra-se na sala de sua residência em Campinas. É uma tarde especial. Os pais comparecem para assistir a uma singela apresentação de seus filhos. As crianças se esmeram para mostrar aos corações, que lhes devotam ternura e dedicação, suas conquistas musicais. Fotos, filmagens, aplausos.

Dois homens armados e encapuzados entram na casa. Rendem os presentes e perguntam pelo dono da casa. A professora se apresenta. Querem o marido. Ela informa estar ele no escritório. Aquele que chefia o grupo e a professora adentram. O marido está ao telefone. Ela recebe a ordem:

 Chame-o exatamente como você costuma fazer.

Ela chega à porta.

 Querido, você poderia vir aqui?

Ante a lividez da esposa, o marido se surpreende e atende de imediato. É rendido pelo assaltante. A esposa recebe ordem de retornar à sala. No escritório, diz o assaltante:

 Sei que você viaja muito ao exterior.

Quero agora dois mil dólares.

 Companheiro  explica o marido, buscando acalmar a situação  façamos o seguinte: vou tirar para fora dos armários tudo o que eu tiver. Você poderá escolher o que quiser levar, mas o dinheiro, infelizmente, eu não tenho.

Ante a insistência por dinheiro, o esposo mostra gavetas e a carteira. Tem cinquenta reais.

Tomada a nota, vem a pergunta do homem sob a máscara.

 Você estava falando com quem ao telefone? Era com a polícia?

 Não, companheiro. Nada disso. É que estamos tentando ganhar um terreno para construir uma creche espírita. Eu conversava com um amigo do Centro exatamente sobre isso.

 Você é espírita, moço?

 Sim, nós somos espíritas.

O homem devolve os cinquenta reais e faz nova solicitação.

 Reze por mim, moço.

Retorna à sala. Determina ao colega a devolução de câmeras e carteiras. Retoma o carro que o aguardava nas cercanias e parte.

Parte e exatamente a sua partida nos oferece interessante material de reflexão.

Vemos avolumar-se nas grandes cidades a violência, o tráfico  esse malfadado rebento do consumo das drogas  e a exclusão social. Enfim, uma série de mazelas, verdadeiras chagas abertas que cabe à sociedade pensar, medicar. Via de regra, no entanto, concentramo-nos em combatê-las, como a amputar o membro cuja chaga já não se consegue mais cauterizar.

É fato, que há situações que demandam a dura medida da repressão. É patente o diuturno esforço de policiais e autoridades nesse mister. Mas, enquanto esses se desdobram no cumprimento de suas tarefas, perguntamo-nos: que fazemos nós pelos irmãos na delinquência? Como estaremos contribuindo para evitar que se engrossem as fileiras de brasileiros que, desconhecedores e descrentes das virtudes da sociedade organizada, nascem, instruem-se e são organizados nos círculos da criminalidade?

Quanto de nossos esforços, de nossos corações e mentes estamos realmente votando para a diminuição das agruras de almas enfermas relegadas à marginalidade humana? Paramos para conversar, alguma vez, com o malabarista de bolas de tênis ou pagamos com alguns centavos a rapidez com que desejamos que ele se afaste dos vidros de nossos carros?

Nenhum de nós poderá arvorar-se em possuidor de elevada virtude, nem cometer a veleidade de comparar-se a almas santificadas como a nobre Teresa de Calcutá.

É fato! Mas não poderíamos, ao menos, presentear com uma frase amiga a quem encontrarmos, com uma oração sincera os enfermos da alma, com uma cesta de Natal quem dela necessite? Não poderíamos sorrir, perdoar? Roguemos a Jesus que sim.

Que nos conceda forças e lucidez para que, apesar de nossos inúmeros defeitos e limitações, possamos fortalecer a flor alva de nossos ideais, para que seu perfume possa oferecer refrigério e alento aos que de nós se avizinhem.

Ao vermos renovados os festejos natalinos, quando nos contagiamos uma vez mais com a vontade de presentear ao Cristo, lembremo-nos de Seu ensinamento:

Em verdade vos digo, todas as vezes que isso fizestes a um destes mais pequeninos dos meus irmãos, foi a mim mesmo que o fizestes.

Ao desejarmos aos irmãos um Natal pleno de realizações luminosas e abençoadas oportunidades de aperfeiçoamento moral, parece-nos válido relembrar a poesia Na noite de Natal, de João de Deus, com que o amigo espiritual nos adverte:

 Por certo, Jesus ficou Nas palhas, sem proteção,

Por não lhe abrirmos na Terra

As portas do coração.

SERVIÇO ESPÍRITA DE INFORMAÇÕES
Boletim SEI: E-mail: boletimsei@gmail.com
Sábado, 25/12/2004 - no 1917

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