domingo, 17 de junho de 2012

A Existência de Deus


Adenáuer Novaes

Dois aspectos devem ser considerados a respeito de Deus. O primeiro é sobre o que de fato Deus é, sobre sua existência real e sobre sua natureza. Sobre isso  nada se pode dizer com certeza, pois apenas teoriza-se. Deus é de fato  um mistério para o ser humano. Mesmo que se afirme ser Deus a causa das causas, cuja inteligência se mediria pelos seus efeitos (a obra do universo), nada se conclui sobre sua natureza. A afirmação apenas lhe atribui uma virtude ou adjetivação humana.
   O segundo aspecto é sobre a idéia que se faz a respeito de Deus. Muitos são os conceitos estabelecidos pelo ser humano a respeito de Deus, desde a negação de sua existência, que implica na afirmação de algo que ocupe o lugar, até o fervor de quem afirma ter um contato direto ou de ser o próprio. Tudo que se afirma ou se intui a respeito de Deus, consagrado, ou não, pelas religiões, refere-se ao domínio das representações psicológicas humanas.  Resulta das experiências transcendentes das pessoas, espelhadas ou não em indivíduos que viveram êxtases místicos.
   A construção das idéias à respeito de Deus pode ter origem na necessidade do ser humano em lidar  com seus conteúdos inconscientes, representados por imagens aversivas, caracterizadas, muitas vezes, por monstros aterradores, dos quais se desejava proteção. A idéia de Deus conforta,  protege, alivia e, muitas vezes, resolve a tensão gerada por aqueles conteúdos, bem como por experiências não assimiladas adequadamente pela consciência.
   No segundo aspecto, a idéia de Deus torna-se uma necessidade psíquica. Sem a qual o ser humano não conseguiria a realização de sua tendência inata a encontrar uma causa que justifique sua própria existência. A idéia de Deus é uma âncora psíquica para sustentação do que não é possível ser entendido, ou que não se consegue lidar  diretamente, pela consciência.  Essa idéia, aparentemente construtora de um caminho para o encontro com Deus, norteia sua inconsciente busca pelo Si-Mesmo, isto é, sua máxima individualidade, essência  singular  que difere  uma pessoa de outra. É a busca pelo Si-Mesmo que norteia a idéia que se faz de Deus.
    Enquanto se necessitar da idéia de Deus como âncora psíquica, não se alcançará o que originou a criação humana. Um novo olhar deve surgir para que se mire na busca daquilo que é a própria individualidade, enquanto se pensar lidar com Deus. Isso não quer dizer que se deve deixar de ter fé ou de se buscar a Deus. São formas condizentes com a psiquê de cada pessoa, sem as quais não se consegue equilibrar-se.
     As formas ou os entendimentos a respeito de Deus produzem os rituais e todas as representações religiosas conhecidas. Afora as atitudes pela sobrevivência, a atitude religiosa é a motivação humana norteadora da cultura, das artes e do desenvolvimento das sociedades.
    No Espiritismo, Deus deve ser considerado não apenas a causa primeira de todas as coisas, mas a autoconsciência norteador da vida e dos objetivos do próprio indivíduo. Cada pessoa deve se considerar o próprio canal de Deus para realização da vida, isto é, Deus se realiza em cada ser humano. Essa idéia deve levar a pessoa a consciência de sua importância pessoal e de seu valor como participante da construção do Universo.
    Existência real de Deus transcende à compreensão humana. A palavra existência (ser no mundo) não retrata adequadamente o que se pode dizer a respeito de Deus. A única afirmação possível a esse respeito, que pode partir de quem o concebe como tal, isto é, do humano, é dizer que é ele próprio que vê, concebe e retrata o mundo e o faz de acordo com o que é. Afirmar que Deus pode ser compreendido e concebido pela obra do Universo incompleto, pois é próprio ser humano que idealiza o que está à sua volta.
    Em matéria de Deus, cada um deve conservar sua crença, porém entendendo que o conceito que tem a respeito também deve evoluir, pois, se o humano que concebe Deus evolui, então a idéia que dele faz também tem de se adequar ao novo estágio de evolução.  Quando há transformações na personalidade, em que se desenvolvem outros mecanismos de compreensão da realidade, a idéia de Deus deve passar por mudanças, pois já não se necessita das proteções e salvações protagonizadas pelo conceito que se tinha. Deus é amor quando se precisa exercitar o amor.

Adenáuer Novaes é Psicólogo Clínico, residente no Brasil. É um dos diretores da Fundação Lar Harmonia - Salvador-BA.

Jornal de Estudos Psicológicos
Ano II N° 3  Março e Abril 2009
The Spiritist Psychological Society 

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