sexta-feira, 29 de junho de 2012

Apego e Renúncia


Manoel Portásio Filho

  Alguns milhares de anos nos separam do momento do despertar da consciência e do livre-arbítrio, quando passamos a ter uma noção mais clara acerca de nós mesmos e do mundo à nossa volta. Daí para a frente, as conquistas se revelaram mais rápidas e dirigidas para as necessidades básicas do homem no mundo. No entanto, somos ainda muito imperfeitos e ignorantes. Disso resultam os nossos comportamentos mais caracteristicamente humanos e entre eles, o apego, fruto da insegurança e do medo.
    Devido ao desconhecimento do mundo espiritual e da vida que o aguarda além da morte, o homem apega-se facilmente às coisas do mundo material e às pessoas que o rodeiam. “O apego às coisas materiais é um indício notório de inferioridade, pois quanto mais o homem se apega aos bens deste mundo, menos compreende o seu destino.” (L. E., perg. 895). Apegamo-nos a todas as coisas, tenham elas valor material ou afetivo.  
Juntamos, em nossa casa, coisas que dificilmente vamos utilizar algum dia; juntamos papéis, revistas e livros que jamais vamos ler. Por serem acessíveis aos nossos sentidos, as coisas deste mundo nos fascinam pela sua forma, cor ou simbolismo.
    Mas, a espécie mais dolorosa de apego ainda é aquela que nos liga a certas pessoas.  É verdade que há geralmente uma base afetiva nesses relacionamentos, mas invariavelmente levamo-los às últimas consequências. Pensamos que determinadas pessoas é que nos fazem felizes e, por isso, nos sentimos incapazes de viver sem tê-las ao nosso lado. Então, imantamo-nos uns aos outros, mental e sentimentalmente, chegando os casos extremos a serem identificados como verdadeiras obsessões.  A partida da nossa “outra metade”, pela separação ou pela morte, costuma se revelar insuportável.  Daí para a loucura, depressão ou suicídio medeia apenas um passo.
    Em muitas culturas é comum o culto do corpo.  Achamo-nos, em muitos casos, extremamente belos, verdadeiros clones de Narciso, e fazemos de tudo para manter essa beleza ou aprimorá-la.  Quando não sejam suficientes os exercícios físicos, a malhação, recorremos ao bronzeamento.  
Quando alguma coisa não seja corrigida pelas vias regulares, recorremos à lipoaspiração, à lipo-sucção ou mesmo à cirurgia plástica, na busca da fonte da eterna juventude.  E os apelos da mídia ainda concorrem para reforçar a nossa idéia de que o corpo é mais importante do que a alma, o que nos faz gastar rios de dinheiro para torná-lo “sarado”.


     A idéia não é nova e vem acompanhando o homem desde pelo menos a Grécia Antiga, onde se criaram os ginásios para essa finalidade. E na Roma dos Césares era natural dizer-se: mens sana in corpore sano.  Kardec nos ensina, n'O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XVIII, n. 5, como é fácil transpor a porta larga que nos leva ao cultivo das más Paixões. Jesus, na verdade, ensinou-nos a cuidar da alma mais do que do corpo.  Sua vida foi um exemplo disso.  E muitos dos seus ensinamentos estavam voltados para a renúncia às coisas do mundo. Foi o caso da recomendação ao jovem rico (Mt 19:16-24);  da necessidade de juntar tesouros no céu (Mt 6:19-21);  e de um olhar para dentro de si mesmo, como no caso de se prestar mais atenção ao que sai da boca, por exemplo.
   Entretanto, renunciar não é uma coisa fácil para o homem, no atual estágio evolutivo da humanidade terrestre. Renunciar implica, muitas vezes, em lutar contra o nosso próprio orgulho, em declinar do nosso grande egoísmo, em abrir mão da nossa evidente vaidade, para beneficiar outrem. 
Renunciar é sair de si mesmo e caminhar na direção do outro.  
Renunciar é deixar o outro ser ele mesmo. Renunciar é encarar sofrimentos, dificuldades, sacrifícios, e “todo sacrifício feito à custa da própria felicidade é um ato soberanamente meritório aos olhos de Deus, porque é a prática da lei de caridade”, conforme ensina o Espírito da Verdade (L. E., perg. 951).  E ele também nos diz que “o mérito do bem está na dificuldade” (perg. 646). “Renúncia, quão poucos são capazes de entendê-la em sua sublimidade”, na abençoada lição de Jerônimo Mendonça, em Nas Pegadas de um Anjo, pág. 38.


Manuel Portásio Filho é Advogado, residente em Londres. É membro do The  Solidarity  Spiritist  Group, Londres-UK.

Jornal de Estudos Psicológicos
Ano II N° 5 Julho e Agosto 2009
The Spiritist Psychological Society 

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