quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Há algo estranho no ar

Há algo estranho no ar

Autor: Vanda Simões
 
Noite. Televisão ligada. O noticiário anuncia as últimas catástrofes mundiais. Dá notícias também das últimas ações bárbaras cometidas pelo homem contra o próprio homem. Invasões, saqueamentos, sequestros, crimes os mais hediondos, guerras fratricidas, disputa de poder, fome, miséria, pestes recrudescentes, discriminação racial e sociocultural a justificar outras tantas ações igualmente discriminatórias. Comportamentos bizarros, indústria do sexo, das drogas e a prostituição ainda como meio de vida. Também notas e notas sobre o mais novo caso de corrupção. Quem se lembra do último?
Acabou o noticiário. Inicia a novela. A vida imita a arte, ou será que a arte imita a vida? Tanto faz! O que importa é que estamos diante de mais uma história maravilhosa, de um enredo fantástico. Imagine que o tema central é a falta de ética entre as pessoas, a maledicência, o orgulho, o egoísmo, a falta de respeito com os pais, a preocupação obsessiva em prejudicar o outro, o "tirar o máximo de vantagem" em todas as situações, a inveja doentia, o ciúme destruidor, a desconfiança, a desenfreada sede do poder etc. Claro que também têm os que lutam pelo triunfo do bem, mas esses só terão êxito no final da novela, senão como prender o público? Precisam de audiência. Além do mais as pessoas boas e sensatas são consideradas até meio chatas e irreais pelos telespectadores. Ninguém agüenta, é o que dizem.
Bem, finalmente acabou. Hora de ir para a cama. Não sem antes assistir a um filme superlegal (e superviolento também). Ou então aquele com cenas de sexo explícito. Chega. Desliga-se a televisão e é hora de dormir o sono dos justos. E dorme-se mesmo. Indignação? Susto? Tristeza? Desalento? Não! Já nos acostumamos com tudo isso, afinal estamos no limiar do terceiro milênio, onde tudo é progresso, avanço. Porque nos escandalizaríamos?
Aqui entra nossa reflexão. Algo de muito grave está acontecendo com o homem. A passividade com que encara a anormalidade faz com que ela perca essa característica, e passamos a conviver com os fatos mais estarrecedores sem, entretanto, nos darmos conta deles. A corriqueira ilegalidade já não nos incomoda. Um jornalista da Revista Veja, em um de seus ensaios, analisando o fato da prostituição infantil e aludindo a uma foto de um senhor de mais de 50, assediando (para não usar termo mais agressivo) uma menor de 13, escreveu que o mais chocava na referida foto era a normalidade existente em volta, ou seja, pessoas em mesas próximas, divertindo-se normalmente, convivendo com uma situação, que de tão comum, se tornou normal. Ninguém se importava com aquilo, afinal era apenas uma criança nos braços sedentos de um homem em busca de prazer. Crime? Sim, é, mas quem se importa com isso? Num país onde corruptos e corruptores se cruzam diariamente nos corredores, onde a impunidade é a lei, porque se preocupar com tal fato?
Algo de muito ruim acontece. O planeta mergulhou em grave crise moral de desastrosas conseqüências. A amoralidade reinante deu lugar a situações tão absurdas a ponto de ter-se a impressão de voltarmos aos tempos de barbárie do planeta, onde o homem desrespeitava seus semelhantes pela simples razão de desconhecer as mais elementares leis de convivência. Ou se conhecia ainda não tinha condições de pô-las em prática. O homem, ainda em sua infância intelectual, matava, saqueava, usurpava, torturava, escravizava. Tudo na mais horrenda normalidade, afinal não se conhecia nada diferente que pudesse modificar esse comportamento.
Passaram-se os milênios. O homem terreno em sua trajetória evolutiva sentiu a óbvia necessidade de crescer. Permaneceu por um tempo na longa penumbra medieval para despertar para a luz nos três últimos séculos. Caminhou para se organizar em grupos, criou leis, traçou metas, desenvolveu estudos que pudessem melhorar sua vida em sociedade, tudo isso ao lado do estupendo avanço tecnológico dos últimos anos.
Entretanto, e lamentavelmente, o homem parece ainda desconhecer seu semelhante. E em pleno descortinar de uma nova era, onde a tônica são os incríveis e rápidos avanços na área da ciência e tecnologia, age de forma primitiva quando se trata de reconhecer no outro um irmão. E ainda mata, saqueia, estupra, usurpa, tortura e escraviza um igual. Rejeita a moral do Cristo, entre nós há tantos anos, a cada vez que precisa dar testemunho de amor ao próximo. Isso para falar apenas do que acontece no mundo ocidental. Exerce de forma doentia o egoísmo e o orgulho, os grandes responsáveis pela situação de miséria moral em que vive o planeta. São essas duas chagas que movem o homem em busca de suas satisfações mais grosseiras, que o faz agredir seu semelhante de forma brutal, insana.
Nada há que justifique as calamitosas situações de fome, miséria e destruição existentes atualmente na Terra a não ser o extremo egocentrismo do homem. Presos em seus míseros e transitórios mundos, os detentores das riquezas e poder (homens e nações) agem com absurda indiferença diante do quadro que aí está. Desvalorizando o que há de real e verdadeiro no ser, criam gerações perversas, destituídas dos valores morais que poderiam tornar melhor o mundo. Ou será que o bárbaro assassinato praticado pelos adolescentes ricos em Nova York é um caso isolado? Não, não é! Tampouco os incendiários de mendigos. Ou as inúmeras chacinas desencadeadas pela loucura instantânea de um homem solitário. Vemos isso todos os dias em todos os lugares do mundo. A fúria selvagem que se abate sobre as pessoas nessas horas parece ser um alerta para o mundo, como a dizer que alguma coisa está muito, muito errada com ele.
É claro que há muitos que lutam com bravura e coragem pela expansão do Bem na face do planeta. Fazendo jus ao homem do terceiro milênio, inúmeras ações de solidariedade e amor ao próximo se concretizam no mundo inteiro. Pessoas generosas e altruístas dedicam suas vidas ao serviço do amor e da bondade, dando incontestáveis exemplos de dedicação e respeito ao próximo. Entretanto, é inegável a ação nefasta e preponderante do mal.
Pergunta-se: de que forma pode-se contribuir para a mudança do que aí se apresenta? A resposta está no mundo há milênios. Muito antes de Jesus, que nos trouxe o que de mais importante necessitamos para a edificação do Espírito, o alerta do autoconhecimento como a chave para o nosso melhoramento já tinha sido propalado por Sócrates, o precursor do Cristianismo. O mal do mundo é o mal do homem, portanto a melhoria do planeta obedece estritamente essa relação. A doutrina de Jesus, o Cristo, é o mais seguro guia de aprimoramento do Ser de que se tem notícias. Basta segui-lo.
Cuidemos de observar nossos atos. Cuidemos de analisar nossas reações diante de tudo isso. Cuidemos de cumprir o nosso papel no contexto em que estamos inseridos, pois o planeta não pode avançar sem que seus habitantes o façam. Não podemos imputar culpas a quem quer que seja pelo que está acontecendo a não ser à nossa incúria diante dos compromissos assumidos. Espíritos imortais que somos, o que estamos vendo é apenas o resultado de uma semeadura mal feita ao longo dos milênios de existência do homem. É a lei da causa e efeito, de ação e reação sendo cumprida em toda a sua plenitude e sabedoria.

A Doutrina Espírita, sendo a revivescência dos ensinamentos de Jesus, muito pode nos ajudar a compreender os mecanismos de que a vida utiliza para nos redirecionar. Basta querermos. A mensagem universal de fraternidade, igualdade e solidariedade é a grande saída para essa situação dantesca de desagregação social e moral em que mergulhou o planeta. Os que resistem a empreender esta bandeira ficarão para trás na grande obra de regeneração pela qual passa a nossa morada terrena. O resto, fica por conta do nosso livre-arbítrio, bênção dada por Deus a seus filhos para que decidissem o caminho a seguir. A situação atual parece demonstrar que escolhemos o caminho mais difícil: o de dores e sofrimentos!

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