quinta-feira, 11 de agosto de 2016

FRANCISCO DE ASSIS (PEÇA)

FRANCISCO DE ASSIS


            Pessoas vão surgindo de diversos pontos trazendo nas mãos cartazes com notícias atuais de variável tema, permitindo que toda a plenária consiga ler.
            Caminham ao centro do palco, mostram e logo saem. A última traz um cartaz na forma de coração escrito: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz...”.(ao som de pássaros).
            Abre a cortina: Francisco está em seu luxuoso quarto, vertido com roupas de grande beleza, sua mente fervilhava idéias interminadas, pondo-se de joelhos falou:

Francisco:         Pai Celestial !...Sinto que nasci para alguma coisa, nesta Terra abençoada. Sou como ave solitária, que o cansaço fez descer nesta região. A cidade de Assis acolheu-me com carinho e nesta mansão desfruto do luxo; o ouro convida-me às extravagâncias, que meu coração desaprova, querendo me convencer-me de que meu caminho é diferente, e que devo fazer alguma coisa em favor dos surdos e cegos que andam comigo...
                        Pai de todas as coisas !... Que devo fazer ? Onde devo pisar ? Que devo comer ? Qual deve ser minha maior preocupação ? Alivia, meu Deus, esta guerra que surgiu na minha frágil mente. Eu quero a paz. !
                        Eu quero ser útil, bom e agradável. Mas como fazê-lo ? Traça, meu Pai, em meu coração, o Teu programa que eu seguirei fielmente. E permita que eu seja instrumento fiel em Tuas sagradas mãos.
                        Sê comigo, Mestre, para que eu seja inspirado; fala, pra que eu possa ouvir, entendendo a Tua vontade. Toma minhas mãos nas Tuas, mostrando-me os campos de trabalho, onde devo acionar os instrumentos de plantio...


(Aumenta-se a música dos pássaros, com um circulador borrifar um perfume suave para tomar o ambiente. Voz em of)

Cristo:              Francisco !...(pausa) Temer é cortar a comunicação com quem quer te ajudar. Duvidar é fazer crescer dentro de si os obstáculos. Eu sou aquele que haveria de voltar !... E volto, quantas vezes serem necessárias, aos corações dos homens de boa vontade, desde quando abram as portas para que Eu possa me fazer presente e dizer novamente: “A Paz seja convosco !...” Eu ainda continuo crucificado no mundo. Tira-me da cruz! O prazer dos homens é me ver sofrendo; já é tempo de mudança, e o começo é teu. Faze-te instrumento dessa paz, no seio dos homens!
 Tem como dogma à fé, como espada, o Amor e como clima, a Caridade; como Alegria, a servidão, como casa o império terreno e como escola, a natureza; como alimento, também a palavra de Deus, como luz, também o entendimento e a tua guerra, será estabelecer a paz! Francisco!... Não deves, em tempo algum, esquecer o perdão; não deves temer as ingratidões, a pobreza, nem tampouco a dor, pois esses são força de Deus. Recebe todo o rebanho da Terra como irmãos, pois são todos filhos de Deus, com os mesmos direitos de viver e trabalhar, em busca da felicidade. Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo, mas o respeito aos teus pais da Terra não deve ser esquecido. Podes fazer muito, se interpretares o chamado de Deus. Estarei ao teu lado, se abrires o teu coração pra que eu possa falar claramente. Até breve.

(Com os olhos vertendo em lágrimas de alegria pelo diálogo, levantou-se serenamente, toma um gole de água)

Francisco:         Graça a Deus!...Graças a Deus!... Não tenho dúvidas de que por processos que desconheço, falei diretamente com o Cristo. Compreendi que tenho uma missão a desempenhar junto aos homens, meus irmãos, e sei que Deus me guiará nos caminhos tortuosos, assinalando o meu coração com a bandeira da vitória. Devo começar por aqui, em minha casa. O que devo fazer no mundo, sabendo que os maiores obstáculos estarão em meu próprio lar, a quem muito devo. Como lhe ofertar gratidão, sem ofende-lo? Como abençoar seu empenho em meu favor, colocando-me em posição contrária? Todavia, para quem tem fé e confiança na Suprema Justiça, o impossível torna-se viável e eu vencerei, por amor à Justiça, vivendo pra o amor.

(Francisco sai do seu quarto e começa a conversar com diversos serviçais que estão correndo de um lado para outro, em ocupações variadas, desde a limpeza ao preparo de alimento destinado aos servos sob severa vigilância de vários feitores. Caminha até eles refletindo)

Francisco:         Meu Deus ! Por onde devo começar ? Quero fazer alguma coisa de bom em benefício da humanidade !... Como é difícil ser útil Como é difícil compreender aos nossos deveres diante da nossa consciência! Como é constrangedor a gente ver e sentir a opressão nos outros! Não posso parar mais e as idéias fervilham em minha mente, qual uma vasilha de água em demorada fervura. Sei que o destino me reserva uma parcela de luta em favor dos que sofrem, e graças aos céus, não me falta disposição.

(aproxima-se de Francisco um dos feitores)

Feitor:              Às tuas ordens, jovem senhor!... Trouxeste alguma ordem da parte de teu pai para que seja executada? Ou os ventos que te trouxeram anunciam somente boas vindas e esperanças para todos nós?

Francisco:         Venho da parte da Paz. Graça a Deus, os ventos que trouxeram são realmente os ventos da Esperança.

Feitor:              O senhor tem alguma ordem?

Francisco:         Tenho. Os servos devem estar todos na hora da refeição, no casarão, sem que falte um. Quero falar com eles.
Feitor:              Eles comem ao pé do serviço, é ordem do seu pai...

(cortando a frase do interlocutor)

Francisco:         Faze todos eles subirem hoje, para comer no casarão.

Feitor:              Sim, senhor! Sim, senhor! Eles irão.

(Francisco se afasta de todos. Sai para meditar, apreciar a vida da natureza, árvores, pássaros para no centro do palco. É envolvido por uma imensa paz ajoelha-se e se põe a agradecer a Deus em oração. Novamente com um circulador borrifar um perfume suave para tomar o ambiente.Voz em of)

Cristo:              Francisco, não tentes mudar o destino desses homens de uma só vez. Cada um está no lugar certo, pelo bem que a natureza lhes quer. Os desígnios da Providência não falham, meu filho. E não penses que eles se encontram desamparados, pois cada criatura recebe de acordo com o plantio que fez em eras remotas. Qual de nós poderemos contrariar os processos evolutivos das criaturas, organizados pela Inteligência Maior ? Poderemos, sim, alivia-los sem violência, pois é para isso que estamos no meio deles, revestindo-nos, de vez em quando, do mesmo lodo onde se encontram. Essa é uma prisão benfeitora que eles, no futura, irão abençoar...
                        A tua tarefa é reunir milhares de cirineus...E, o quanto puderes, ajuda-los nas subidas dos calvários da vida, sem que eles o saibam, sem que o interesse te estimule e sem que a vaidade entorpeça os teus sentimentos de Amor. Faze o bem, por sentires o Bem dentro de ti.

(Francisco ao centro ajoelhado surge outros “Franciscos” vestidos iguais a ele formando um círculo com ele ao centro)

Francisco1:       A teoria pode ser oferta santa de todos, mas a prática é exclusivamente individual.

Francisco2:       Se, por acaso, encontrares um homem faminto, a simples descrição da comida o saciará ?

Francisco3:       Se alguém com sede te procurar e usares o dom da palavra da última moda, com encanto, matarás sua sede?

Francisco4:       Se algum nu estender-te a mão, pedindo a tua capa para lhe cobrir a nudez, os teus bons conselhos o vestirão?

(formado o círculo em torno dele)

Francisco1:       Tudo isso é muito valioso, mas quando estiverem unidos a tais gestos, o exemplo e a vivência.

Francisco2:       Podes fazer muito por quem tem fome, menos comer por ele.

Francisco3:       Podes fazer muito por quem tem sede, menos beber por ele a água.

Francisco4:       Podes fazer muito por quem tem sede, menos vestir por ele.

(Os Francisco 1, 2, 3 e 4 dão-se as mãos formando uma roda em torno do Francisco)

Franciscos:       Quanto à caminhada com a cruz nos ombros, a grande subida evolutiva, pertence a cada um; a iniciação espiritual repitamos, é individual.

(o Feitor soa o triângulo anunciando a hora do almoço e Francisco desperta do transe e os demais Franciscos saem do palco enquanto os serviçais vão chegando para o almoço)

Feitor:              Subam todos para a sede, mas olhem lá, sem barulhos. O filho do patrão quer falar com todos, o que para nós é uma honra. Quero muito respeito e muita obediência! Vocês me conhecem...

(Francisco olha para o Feitor desaprovando suas palavras aproxima dos serviçais como filhos, olhando um a um. Pára diante de todos)

Francisco:         Não maltratem esses homens e mulheres, pois são, como nós outros, filhos de Deus. Exijam deles somente o trabalho, que é dever de cada criatura, ofertam-lhes regalias compatíveis com o labor de cada dia. Quando doentes, façam-nos descansar e cuidem de trata-los com humanidade. Sejam amigos deles, procurando compreender que a vida pertence a todos. Pedirei a Deus por cada um de vocês.

(Aproxima-se de Francisco, Gustavo um dos feitores. E afastando-se dos outros)

Francisco:         Olá, Gustavo!

Gustavo:           Senhor Francisco, como vai? O senhor deve estar bem; jovem, rico, bonito, sendo cortejado por mulheres lindas... O senhor é feliz. Quem dera fosse eu!

Francisco:         Gustavo, o nosso tesouro maior está depositado nos Céus...

Gustavo:           Olha, senhor Francisco!..(e apontou o dedo para uma cabaça) O senhor sabe o que tem ali dentro?

Francisco:         Certamente que é água, Gustavo. A natureza é tão sábia, que além de nos doar água pura para nos sustentar a vida do corpo, ainda faz a vasilha com as condições exigidas, no sentido de manter essa mesma água, fresquinha e saudável.

Gustavo:           Será que tem alguém nos ouvindo ?

Francisco:         Tem Gustavo, é o Senhor ! O Senhor do céu, Gustavo. Deus, que tudo vê e tudo escuta, mas não castiga a ninguém e ama todos com o mesmo ardor.

Gustavo:           Então vou contar ao senhor, um caso... Olha patrãozinho!...Aquela cabaça, era para água.(e apontou o dedo para uma cabaça), mas o seu destino mudou; hoje está cheia de óleo, que deverei derramar na minha saída, em todos esses fardos até ao lado da porta, sem vestígios. Tarde da noite atearei fogo, por que não agüento mais o seu pai. Já pela terceira vez ele cospe na minha cara, na vista dos servos. Ele exige respeito, no entanto, não respeita ninguém. Desculpa-me, mas seu pai é muito injusto.

Francisco:         Gustavo, não deves prejudicar o teu senhor, do modo que pretendes. É certo que estás sendo lesado nos valores que a vida te confiou, mas nunca se esqueça que é filho de Deus e fazes parte do seu grande rebanho. Se já chegaste até aqui com esse fardo pesado, caminha mais um pouco, porque na verdade a tolerância que porventura exercitas agora, adiante te abrirá muitas portas, por onde poderás passar com mais facilidade, sentindo a vida e vivendo em Deus. O ódio que parece querer pousar no teu coração escurecerá os teus dias, dificultando que encontres os caminhos da luz.

Gustavo:           Suas palavras envolvem meu coração, nunca tinha ouvido falar ao bonito. Mas...

(Francisco interrompe o interlocutor)

Francisco:         Vê como a maldade não reside em seu coração.

(Francisco abraça Gustavo e esse começa a chorar de tanta emoção)

Francisco:         Estás querendo é defender-te dos ataques do teu senhor, e querendo dias melhores, no entanto, não sabes por onde começar e, nessa perturbação, quer por meios errados. Se começar revidando as esporas da prepotência, perderás, porque o ódio gera ódio, rebenta-se na maior inimizade, e quando os transformamos em amor, Deus nos premia com a paz.

Gustavo:           Nunca pensei que na família do carrasco pudesse nascer alma tão pura como o Senhor. Sinto que deve estar sofrendo com esse modo de viver. Preciso de quem me ajude, não sei mais o que pensar sobre mim, quero ter fé em alguma coisa, quero ter esperança, menino Francisco!... (destampou em pranto) Só me resta fazer uma coisa... Vou quebrar o símbolo do meu ódio...

(Gustavo levanta pega uma madeira e vai em direção da cabaça em prantos desesperados, mas Francisco o impede com muita brandura)

Francisco:         Não faça isso, Gustavo. Queres mostrar o teu arrependimento, destruindo? Quebrar essa cabaça é mostrar que a vingança ainda ronda o teu coração. Por que quebrá-la ? Ela somente te serviu, resguardando a água das impurezas para te saciar, em sempre foi amiga fiel! Mesmo o óleo que nela se encontra poderá ser útil em alguma candeia e, se perdeu o ambiente para guardar água pura, servirá para uma dona de casa como depósito ao que queima para clarear a noite.

Gustavo:           Senhor, me ajude a entender...

Francisco:         O ódio e a vingança, na vasilha do coração, é como essa cabaça que era para água e levou óleo. Após muito tempo é que poderá voltar a conduzir água potável, porque o óleo se entranha nas fibras mais íntimas e tudo o que toca. No entanto, se persistirmos no bem, tudo alcançaremos na paz de Deus e de Cristo. Sê corajoso, porém, no tocante ao bem que podes fazer. Queiras ser homem, não apenas pela linha de masculinidade que a vida te emprestou, mas para converter a tristeza em alegria, a guerra em paz e o ódio em amor. Procurando mostrar a tua força por todos os meios, no entanto, nunca te esqueças de dominar os teus próprios impulsos de vingança, de inveja e de descrença.

(Gustavo ajoelha-se e chora como criança, Francisco ajoelha-se diante dele. Gustavo pega as mãos de Francisco e ampara o rosto molhado de lágrimas, ouve-se uma singela música e novamente com um circulador borrifar um perfume suave para tomar o ambiente. Voz em of)

Cristo:              Esta é mais uma prova , nosso Pai, de que criatura nenhuma é ruim. Desde quando lhe ofertamos amor, a fera se transforma em humano, e esse se afigura ao anjo. O que falta em quase toda a humanidade é compreender as necessidades de afeto de uns para com os outros, sem que o egoísmo dele faça parte. Quanto custa um pouquinho de amor, para com aqueles que nos rodeiam ? Quanto custa um pouquinho de amor, que poderemos dar ao próximo? A verdadeira amizade, que começa nestes minúsculos instantes de entendimento, só precisa que apareça alguém com a devida coragem para valorizar e fazer expandir esse tesouro que herdamos pela sua misericórdia, oh Pai. Assim, temos que reconhecer a necessidade urgente da ação evangelizadora no Mundo. Identificar-se como agente da ação transformadora.

(Equipe de música começa canta a música: “Pés descalços, mãos marcadas, moradores das calçadas...” Enquanto entra crianças com cartazes com fotos de pessoas sendo ajudadas)


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