sexta-feira, 14 de outubro de 2016

A CONVERTIDA DE MIGDOL, UMA APÓSTOLA

A CONVERTIDA DE MIGDOL, UMA APÓSTOLA

A biografia de Maria de Magdala é um dos
mais admiráveis temas da história do
Cristianismo, destacando-se como
exemplos inesquecíveis sua sujeição na
ilusão da beleza inóspita e sua posterior
ternura aos hansenianos do Vale dos
Imundos.
Segundo consta na tradição, a “mansão” daquela mulher,
em Magdala ou Migdol (torre), hoje el-Mejdel, à época
cidade localizada na costa ocidental do Mar da Galileia,
era procurada pelos príncipes das sinagogas, abastados
comerciantes, bilionários senhores de terras e de escravos,
funcionários de alta categoria da administração herodiana,
que lhe assentavam no cofre moedas de ouro, jóias,
dracmas de prata, perfumes raros, presentes exóticos.
Aquela mulher ficou conhecida como Maria Madalena,
personagem que traz à tona discussões com interpretações
dessemelhantes sobre sua vida. Destarte, optamos por
esquadrinhar um consenso a propósito de determinadas
questões fundamentais, para que nossa pesquisa não
perdesse apropriada uniformização do seu conteúdo.
Há quem afirme que muito mais a tradição do que a
realidade se encarregou de difundir a suposta má fama de
Madalena. “O Talmud apresenta como casada com o judeu
Pappus Benjudah, que abandonou para unir-se ao oficial
de Herodes chamado Panther; não era necessariamente
uma "pecadora pública" nem uma "viciada" como a
descreve Gregório Magno”.(1) Muitos a identificam como
endemoninhada (por sete obsessores), prostituta (as bases
históricas dessa última afirmação parecem ser bastante
frágeis para alguns exegetas). Sabe-se, com certeza, que a Maria difamada de Magdala não era feliz.
Alguns escritores e estudiosos contemporâneos, baseados
nos Evangelhos Canônicos, nos livros apócrifos do Novo
Testamento e nos escritos gnósticos, sobretudo Margaret
George, Henry Lincoln, Michael Baigent e Richard Leigh,
autores do livro O Santo Graal e a Linhagem Sagrada
(1982), e Dan Brown, autor do romance O Código da
Vinci (2003), apesar de proporem teses mirabolantes,
descrevem Maria Madalena como uma apóstola.
Certa noite, instada por uma serva de confiança, permitiu
um diálogo sobre um Excelso Peregrino que percorria as
estradas da Galiléia e da Judéia. Entusiasmada, no dia
seguinte, servindo-se de frágil embarcação, atravessou o
lago para conhecer Jesus, em Cafarnaum. Os dias se
passaram até quando o Cristo esteve em Magdala, a
proprietária da famosa “casa nobre” tomou de um vaso de
alabastro que continha o perfume do lótus, comprada a
preço de ouro.
Era seu presente ao sublime Rabi da Galileu. Sabendo-O
num banquete em casa de Simão, um rico comerciante da
Galiléia, para lá se dirigiu.(2) Quase ao final da ágape,
rompendo a segurança, a famosa e afamada de Magdala(3)
irrompe na sala e se arroja aos pés do sublime Galileu. O
endinheirado Simão, dono do casarão se enche de fúria,
mas receia determinar expulsá-la.(4) O afetuoso Nazareno
exalta o gesto daquela corajosa Madalena que ajoelhada a
seus pés, rega-os com suas lágrimas, enxuga-os com seus
sedosos cabelos e os unge com o sobrenatural bálsamo que
invade todo o recinto. O divino Senhor simplesmente diz:
por esse gesto te digo que os teus muitos pecados te são
perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco
é perdoado, pouco ama. Mulher, a tua fé te salvou; vai-te
em paz.(5)

Avaliava o Mestre o coração daquela alma intensamente
amorosa, transitoriamente fraquejada sob o guante da
ilusão da beleza física desértica. Por isso investiu na sua
recuperação, incentivando a modificar de vida, o que ela
acolheu com a consistência adamantina da sua
personalidade forte e iniciou um rumo novo,
transformando-se, depois da Mãe de Jesus, no maior
exemplo de Amor na face da Terra.
Na manhã subsequente a população de Magdala soube,
surpreendida, a notícia da conversão da mulher, insígnia
da iniquidade. Ela abrira mão de todos os bens materiais
que possuía e, com o estritamente necessário, iniciara nova
vida. Juntou-se discretamente aos que seguiam o Messias,
mas infelizmente por várias vezes, recebeu a bofetada da
suspeição.
No transcurso dos meses, atingindo os momentos da
traição de Judas, da prisão de Jesus, do julgamento
arbitrário, ei-la, peregrinando para o Gólgota,
acompanhando-O. A convertida de Magdala conservou-se
ao pé da cruz, unida a Maria de Nazaré e ao jovem João
Evangelista. No instante em que a fronte do Mestre
pendeu pesada, ansiou abraçar-se outra vez aos Seus pés e
osculá-los com soberana veneração, porém se sentiu
imobilizada.
No domingo (três dias após o martírio da Cruz), chegando
ao túmulo do Mestre ao lado de Joana de Cusa, Maria
(mãe de Marcos) e outras mulheres (6), deparou com a
pedra do sepulcro deslocada, dobrados os lençóis de linho
que lhe haviam envolvido o corpo e o sepulcro vazio.
Madalena teve receio que os fanáticos judeus houvessem
furtado e escondido o corpo do Príncipe da Paz.(7)
Enquanto as demais mulheres retornaram a Jerusalém, a
fim de noticiar o sucedido, Madalena conservou-se no jardim adjacente, a chorar.
A nostalgia feita de agonia lhe enxovalhava o coração,
quando escutou a dúlcida voz do Crucificado, chamando-
a: - Mulher! “[Gyne]”(8) Ela se volta, e mal consegue
avistar um vulto, os olhos ainda embaciados pelas
lágrimas e as pupilas dilatadas pela escuridão do sepulcro.
Seria o jardineiro? Teria ele ocultado o corpo do Divino
Amigo? Então, os ouvidos descobrem o que os olhos não
podem desvendar: a voz torna a chamá-la, mas desta vez
pelo nome: Maria! Quando a filha de Magdala ouve
aquela voz transcendente chamando: “- Maria!”, ocorre
uma transformação admirável: ela reconhece o suave Rabi
redivivo, e exclama: “- Raboni(9), meu Mestre!” E,
literalmente, tenta abraçá-lo, todavia não era momento
para tocá-lO.(10)
Interessante meditar “por que razões profundas deixariam
o Divino Mestre tantas figuras mais próximas de sua vida
para surgir aos olhos de Madalena, em primeiro lugar? O
gesto de Jesus é profundamente simbólico em sua essência
divina. Dentre os vultos da Boa Nova, ninguém fez tanta
violência a si mesmo para seguir o Salvador, como a
inesquecível obsedada de Magdala.”.(11) A ex-vendedora
de ilusões difamada pelos madalenos, em quem se
costumava atirar injúrias, no encontro com o Mestre
materializado redescobre sua identidade e até amplia seu
horizonte existencial. Ao reconhecer Jesus, imediatamente
O coloca acima, chamando-O Raboni. O Cristo estava ali,
redivivo, radioso como a madrugada recém nascida.
Madalena foi anunciar o episódio aos apóstolos, que não
acreditaram. Por que haveria Jesus de aparecer logo para
ela? No entanto, Maria de Nazaré a abraçou e lhe pediu
detalhes. Os dias que se seguiram foram de saudades e
recordações. As notícias auspiciosas chegavam-lhe aos ouvidos.
Soube que naquele mesmo dia, indo dois discípulos para
suas residências situadas nos arrabaldes (Emaús), distante
de Jerusalém sessenta estádios(12), os discípulos enquanto
conversavam, o Cristo se lhes juntou e se pôs a caminhar
com eles (Jesus havia tido seus pés dilacerados na
crucificação); - mas não O reconheceram. “Ao
aproximarem-se de suas casas, o Crucificado queria ir
adiante. Os dois disseram-Lhe: - Fica conosco, que já é
tarde. Ele entrou com os dois. Estando com eles à mesa,
dividiu o pão, abençoou-o e lhes deu. Abriram-se-lhes ao
mesmo tempo os olhos e ambos O reconheceram; Jesus,
porém, lhes desapareceu das vistas.
Madalena soube que Jesus apareceu também para “Simão
Pedro ,Tomé, Natanael, os filhos de Zebedeu e dois outros
de seus discípulos à margem do mar de Tiberíades.”.(13)
Depois disso, “Jesus os conduziu para Betânia e, tendo
levantado as mãos, os abençoou, e, tendo-os abençoado, se
separou deles e foi arrebatado ao infinito. Quanto a eles,
depois de o terem adorado, voltaram para Jerusalém,
cheios de alegria.”.(14)
A convertida de Magdala experimentou solidão e
abandono e, para suavizar a imensa saudade do Rabi,
passou a andar pelas longas praias que tanto O
relembravam. Numa dessas tardes, encontrou leprosos que
vinham da Síria a fim de buscar o socorro da cura. Ela os
abraçou, dizendo-lhes que Jesus foi crucificado. Deteve-se
por horas a falar, saudosa, do que aprendera com quem era
o Caminho, a Verdade e a Vida. Depois, seguiu com eles
ao vale dos imundos (leprosos).
Alguns anos após, devorada pela lepra, sentindo que ia
desencarnar, desejou rever Maria de Nazaré e foi a Éfeso.
Após três dias de delírios, sentiu-se repentinamente expulsa do corpo, na praia onde encontrara os leprosos
sírios e, sua aparência era de quando jovem e bela. Nesse
momento vê caminhar sobre as águas a figura de Jesus que
lhe disse:
- Vem Maria, já atravessaste a porta estreita. Todas as tuas
culpas estão perdoadas porque muito amaste e muito
sofreste. Eu estava a tua espera. Agora dorme. Eu te
escolho para que venhas ao meu reino! Madalena
adormeceu nos braços de Jesus.
Jesus realizou duas hierarquias de “ressurreição”:
“ressurreição” do corpo, e “ressurreição” do espírito.
“Ressuscitou” Lázaro, e “ressuscitou” Madalena. Aos
olhos do mundo, a primeira dessas duas maravilhas
assume maiores proporções, mas, aos olhos de Deus, o
segundo prodígio é mais belo, mais valioso. O corpo de
Lázaro veio a morrer após aquela “ressurreição”.
Madalena nunca mais morreu, porque o que nela ressurgiu
não foi a carne, foi o espírito. O mundo se maravilha na
“ressurreição” de Lázaro. O Mundo Espiritual Superior se
extasia da “ressurreição” de Madalena.
Especula-se que após essa encarnação dos tempos
apostólicos, Maria de Magdala ainda teve outras
encarnações, até chegar a encarnar pela última vez como
Madre Teresa de Ávila (Santa Teresa de Jesus) cujo nome
verdadeiro era Teresa de Cepeda Y Ahumada, uma
revolucionaria religiosa nascida na Espanha em 1515 e
falecida em 1582.(15) “Se non è vero, é ben trovato”.(16)

Referência bibliográfica:
(1) Pastorino, Carlos T. Sabedoria do Evangelho , Rio de Janeiro: Ed
Sabedoria, 1964
(2) Não deve ser confundido com outra cena semelhante, ocorrido mais tarde
(em abril do ano seguinte) na casa de Simão, ex-leproso, em Betânia (Mat. 26:6-13,
Marc. 14:3-9 e João, 12:1-8), quando Maria de Betânia, irmã de Marta, executou o
mesmo gesto.
(3) Alguns exegetas não reconhecem Maria Madalena como sendo a mulher
da narrativa de Lucas.
(4) Por delicadeza, Marcos omite o nome da mal-afamada. Esse silêncio fez
com que na igreja antiga se desenvolvesse uma interpretação extremamente
confusa.
(5) Lucas, VII, 47 e 48
(6) De acordo com Lucas e Marcos, o objetivo, para as mulheres se dirigirem
ao túmulo, foi embalsamar o corpo de Jesus com especiarias
(7) A pilhagem de sepulturas era algo bem comum na Palestina, onde as
tumbas ficavam acima do chão. Diante disso, um crime devia ser esperado, uma
vez que Jesus foi sepultado num túmulo emprestado, de um rico doador.
(8) Em grego, mulher é gyne, de onde derivam as palavras portuguesas
“gene”, “genética”, “gênero”, “gênesis”
(9) O termo "Raboni" é mais solene que o habitual "Rabi"
(10) Na narrativa joanina , Madalena ela é destacada como primeira
testemunha do túmulo vazio (20:1-10) e como a primeira pessoa a quem o Senhor
ressurrecto apareceu (20:11-18), em contraposição aos Sinópticos, onde ela dividiu
estas experiências com várias outras mulheres (Mat. 28:1-10; Mar. 16:1-8; Luc. 24:
1-11
(11) Xavier, Francisco Cândido. Caminho, Verdade e Vida, ditado pelo
Espírito Emmanuel, Rio de Janeiro: Ed FEB, 1999, cap. 92)
(12) O estádio romano valia 625 pés romanos ou seja 185 metros
(13) Kardec, Allan. A Gênese, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 1977, item 59
(14) Lucas, cap. XXIV, vv. 50 -53 e At :9-12
(15) Disponível em http://feparana.com.br/parolima.comacesso em 16/02/2012
(16) "Se não é verdade, é bem contado."



Jorge Hessen
http://jorgehessen.net

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