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quinta-feira, 5 de julho de 2012

Conflitos Psicológicos

  Manuel Portásio Filho


O homem é um ser complexo que, ao nascer, traz consigo uma bagagem imensa, enriquecida por suas vivências e experiências positivas, que constituem a somatória dos seus valores evolutivos, mas também crivada de passagens menos felizes, traumáticas, difíceis de lidar.    De qualquer forma, ele não é uma tábula  rasa,  uma  folha  em branco,  como  pensavam  alguns  filósofos.    Apenas, ao reencarnar, esquece-se do passado, relega-o à instância do inconsciente, e começa uma nova caminhada, como se do zero partisse, o que lhe dá maior liberdade de ação. 
Os problemas de antanho, todavia, os da esfera psíquica, permanecem pendentes, pois não se resolvem com o “simples” esquecimento nem com o iniciar uma nova experiência carnal.

   Na verdade, somos herdeiros de nós mesmos, andarilhos do tempo, arrastando as pesadas correntes dos nossos erros e insucessos, que vincam cada nova existência na matéria.  Conquistamos a liberdade à custa de ingentes sacrifícios, mas ainda não sabemos lidar com ela em toda a extensão de benefícios que nos oferece.    Descobrimos o prazer e nos exasperamos por ver escaparem as melhores oportunidades de experimentá-lo nobremente. 
Amealhamos conhecimentos que mais nos confundem e atemorizam quando não sabemos interpretar o significado dos fatos mais comezinhos da existência.    E nossa fé esvazia-se diante do brilho das ilusões mundanas e dos vaticínios irracionais de todos os tempos. 
   A encarnação é dada ao Espírito para o seu progresso e crescimento; ninguém encarna para o mal, para o sofrimento, para a infelicidade, para o castigo.   Ela visa a conquista da felicidade, que é mais descoberta do que aquisição.  A encarnação  significa  uma  volta  à  carne,  à matéria,  com  vistas  à  superação  de problemas,  ascensão  moral  e  aprofundamento do processo de autodescoberta;    mas,  acima  de  tudo,  para  uma espiritualização,  cada  vez  maior,  do ser.    Contudo, encarnados, acabamos por nos embrenharmos na selva selvaggia do materialismo, da luta pelo ter e do culto do corpo, não bastassem nossos dramas existenciais e conflitos pessoais, que, no mais das vezes ficam escamoteados pela inocência da roupagem infantil.
   O conflito é da natureza humana; nasceu no homem, com o advento  do livre-arbítrio, da consciência de si mesmo,  da  memória  e  da  mediunidade,  e terá  que  ser  resolvido  pelo  homem,  o Espírito  encarnado.  Ninguém poderá atingir os escalões mais elevados da vida cósmica enquanto não resolver seus conflitos - problemas criados pelo próprio homem desde os primeiros degraus da escada evolutiva - porque os valores psicológicos erguem-se das experiências humanas vividas anteriormente, em forma, principalmente, de tendências e conflitos, que correm o risco de agravar-se com as possíveis feridas e cicatrizes da infância, ainda tão comuns neste mundo de expiação e provas, onde os pais, Espíritos igualmente em luta com os seus próprios desajustes e desafios, na sua infância, nem sempre receberam a educação e os cuidados necessários.
   Como bem assinala Joanna de Ângelis, “estes são tormentosos dias de crises: morais, de valores, de consciências, de responsabilidades, de emoções, de esperanças, de significados existenciais...” (O Amor Como Solução, cap. 18).    Os conflitos estão por toda parte; no Oriente e no Ocidente, no hemisfério Norte e no Sul, em forma de guerras, de convulsões sociais, de crises econômicas, de negligência no campo da educação, de avanço no consumo de drogas, de banalização do sexo, de crimes contra a vida (liberação da prática do aborto, prática da eutanásia, aumento dos casos de suicídio no mundo) etc. Por isso, as crises mais gritantes são aquelas que se desenrolam no campo íntimo do psiquismo de cada ser humano, vazio de realizações interiores.  
   Então, os conflitos psicológicos têm origem nos comportamentos mais aberrantes do homem, que despreza os valores inerentes à sua natureza espiritual para ficar com as condutas desencadeadoras de ansiedades e angústias, ligadas ao cultivo das ilusões do mundo em todas as épocas, gerando uma herança pesada, que ressurge  sempre,  enquanto necessidade  de  corrigenda,  apoiada sobre os ombros de cada um de nós. 
E se encarnamos para conquistar a felicidade, ela é possível neste mundo mesmo, a despeito dos nossos conflitos, pela prática do amor ao próximo e consequente construção da paz da consciência.


Manuel Portásio Filho é Advogado, residente em Londres.  É membro  do  The  Solidarity Spiritist  Group, Londres-UK.-

Jornal de Estudos Psicológicos
Ano II N° 6  Setembro e Outubro 2009  
The Spiritist Psychological Society 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

O Ser Pensante


Ana Cecília Rosa  

No prefácio do livro O Homem Integral, Joanna de Angelis aborda a definição do Homem em relação às diferentes doutrinas.  Segundo o Evolucionismo, o Homem é dotado de razão, o que o diferencia dos outros animais e alça-o ao primeiro lugar na escala zoológica. Descartes considerou o “ser pensante por natureza, com a razão que compreende e explica a si mesmo” e tendo, no cérebro, a origem do pensamento racional.  A psicologia transpessoal, porém, abre espaço novo para uma visão mais espiritualista do ser humano, esclarecendo a respeito da sua “transcendência”. O Espiritismo, por sua vez, adiciona, a esses conceitos, a certeza da vida eterna, proporcionando aprendizado ininterrupto,  adquirido  pelas  diversas  encarnações e vivência espiritual, contribuindo  de  forma  definitiva  na formação do indivíduo e revelando a importância  de  entender  o  ser  pensante sob o seu aspecto biopsicossociológico e espiritual.
   São faculdades humanas: consciência de si mesmo, linguagem racional, emoções, sentimentos e exercício da vontade ou livre arbítrio. Esse aprimoramento, que distingue os homens e os torna superiores aos outros animais, é conquista evolutiva.  A natureza, através de diversas experimentações aperfeiçoou a forma humana, mas ela ainda se encontra distante da perfeição intelectual e moral.  É de conhecimento comum que inteligência não é atributo apenas da espécie humana, já que os instintos são formas de inteligência rudimentar.  Atualmente, neurocientistas e psicólogos empenham-se em descobrir os diferentes tipos de inteligências e a sua aplicabilidade. Entretanto, “desligados das correntes espiritualistas”, segundo Hermínio C. Miranda, eles não compreendem “as desassemelhanças intelectuais” entre gêmeos idênticos, porque não sabem ainda que a inteligência  é  atributo  do  Espírito.  E complementa: “a inteligência é a resultante do conhecimento acumulado ao longo dos milênios e das inúmeras encarnações. Não somos inteligentes por causa de uma combinação genética particularmente feliz, ou porque nos desenvolvemos em ambiente adequado, mas porque, no passado, já nos habituamos a manipulação  e  apropriação  do conhecimento,  através  do  estudo  e do aprendizado”.
   A medida que  experimenta  e  desenvolve  essa  inteligência  rudimentar, o homem passa a ter uma maior consciência de si mesmo,  conquista  a  razão,  aprimora  o  raciocínio,  adquire lucidez  e  passa  a  exercer  o livre  arbítrio.  A aquisição dessas virtudes permitirá ao ser pensante iniciar sua valorosa luta para a conquista dos valores superiores da alma: a responsabilidade, a sensibilidade, a sublimação das sensações em sentimentos, enfim, todos os condicionamentos que, segundo André Luiz, “permitirão ao Espírito alçar-se à comunidade dos seres angélicos”. O Homem passa a ser livre para escolher seu próprio destino.  No entanto, o direito ao livre-arbítrio implica no ônus da responsabilidade.  Nesse particular, a vontade desempenha importante papel contribuindo a favor de conquistas incessantes.  A cada vitória alcançada através da vontade, ele compreenderá melhor as leis divinas, presentes em sua consciência, e fará delas a norma de suas ações.  Assim, atingirá o “ponto moral”, definido por Leon Denis, pelo qual dominará e governará a si mesmo, modificando-se emocionalmente durante esse processo, de forma a assegurar, “com os próprios esforços, ensinamentos e exemplos, a vitória da vontade e do bem”. 
   O sentimento é o que caracteriza a alma humana.  Em princípio como instinto primário, elevou-se através do desenvolvimento da afetividade e transformou-se em impulsos de amizade, fraternidade e dever, promovendo conquistas no campo do conhecimento e das artes.  Segundo Joanna de Angelis,  sob  o comando da vontade dignificada, ele confere  ao  indivíduo  equilíbrio, “empatia para lutar e coragem para vencer  mesmo  que  as  dificuldades se  apresentem  desafiadoras”.  À medida que o homem evolui, maior é sua capacidade de externar os sentimentos, estreitar os vínculos afetivos e entender a vida. Entretanto, apesar de seu alto significado, o sentimento deve ser conduzido pela razão, para que não se transforme em desarmonia, motivado pelas paixões. 
   O Homem integral é, portanto, aquele que desenvolveu ao máximo as  suas  faculdades  essenciais:  pensar,  querer  e  sentir  através  da sublimação  do  pensamento,  da vontade e do sentimento, tendo em vista o divino presente em todos.

 
Ana Cecília Rosa é médica pediátrica, residente no Brasil. É membro do Instituto de Divulgação Espírita - Araras/SP.

Jornal de Estudos Psicológicos
Ano II N° 6  Setembro e Outubro 2009  
The Spiritist Psychological Society 

Sinfonia Cósmica


Rodrigo Machado Tavares  

Carl Sagan, em seu livro Cosmos, busca mostrar que existe vida inteligente no Universo. Stephen Hawking, em Uma Breve História do Tempo: do Big Bang aos Buracos Negros, também aborda a idéia de uma inteligência superior no Universo, isto é, Deus. Em verdade, o próprio Haw-king afirmara ao escrever tal livro: “tento compreender Deus”. Um  outro cientista, Fritjof Capra, em A Teia da Vida, traz uma síntese de descobertas  científicas  recentes.  Capra explora a integração natural entre diversos sistemas vivos, evidenciando a existência de uma “inteligência suprema, causa primária de todas as coisas” (vide pergunta número 1 de O Livro dos Espíritos), confrontando os paradigmas mecanicistas.    
A concordância de pensamentos desses sérios e eminentes cientistas elucida a ordem natural existente no Universo. Em outras palavras, as leis do Universo representam uma verdadeira sinfonia cósmica, haja  vista que  tudo  é  Cosmos  (harmonia,  ordem)  e  nada  é  Caos  (desarmonia, desordem). É oportuno observar que, ironicamente, a própria Teoria do Caos  vem  mostrar  que  não  existe Caos  (vide  Caos,  a  criação  de  uma nova ciência, de James Gleick).
   O Espiritismo facilita a compreensão deste fato: a sinfonia cósmica.
Através da literatura Espírita, entendemos que “Deus é... todo-poderoso, soberanamente justo e bom” (vide pergunta número 13 de O Livro dos Espíritos).  Dessa forma, como “Músicos Cósmicos” que somos, temos  o  dever  de  colaborar  nessa  sinfonia, eliminando os “ruídos” do egoísmo e os “acordes” da vaidade.  

   
Rodrigo Machado Tavares  é  Engenheiro  e pesquisador,  residente  em  Londres.  É membro do Allan Kardec Study Group, Londres-UK. 

 
Jornal de Estudos Psicológicos
Ano II N° 6  Setembro e Outubro 2009  
The Spiritist Psychological Society 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Universo Quântico


Adenáuer Novaes

O Universo é infinito, ao menos na concepção da mente atual.  Nele cabem todas as representações psíquicas que o ser humano porventura conceba. Analisando o Universo sob o prisma da Física Quântica, admiti-se  a  existência  de  múltiplas dimensões nas quais tudo acontece  de  forma  a  justificar  os fenômenos  percebidos,  porém, improvável que se tenha de fato alcançado a essência das coisas. 
Ainda lidamos com representações, pois só é possível apreender pelos sentidos humanos o que é exterior, isto é, captável na frequência material.    A ciência ainda avançará na direção do Espírito, proporcionando  a  aquisição  de  conhecimentos  além daqueles  decorrentes  da  atual tecnologia,  que,  por  mais  avançada que seja, ainda é limitada.
A Física Quântica demonstrou que o Universo não obedece totalmente a lógica cartesiana e que existem dimensões que se interpenetram,  promovendo  a diversidade  de  entendimentos  e possibilidades  de  compreensão do que nos circunda.
   O Espiritismo, a partir dos estudos de Allan Kardec, nos trouxe a dimensão espiritual sem precisar de nenhum dos instrumentos da Física Quântica; tampouco criou sofisticadas teorias que exigissem raciocínios complexos nem difíceis equações matemáticas.  A dimensão espiritual, hoje comprovada matematicamente pela própria Física Quântica, é mais uma das infinitas dimensões disponíveis para a evolução do Espírito acontecer.  Elas se refundem, criando novas dimensões a serviço da construção de realidades, cada vez mais complexas e exuberantes para o Espírito alcançar seu desiderato.
Tudo isso promovido por um Criador que, ao menos simbolicamente, se encontra no íntimo de cada ser humano, realizando-se nele.  A consciência da presença divina em cada ser humano coloca-o como participante ativo na realidade à sua volta.
   O Universo Quântico engloba a dimensão espiritual que, por enquanto, é o patamar mais próximo que o espírito encarnado pode conceber.  Além dela, por causa do nível de evolução do Espírito, ainda não é possível conceber outras dimensões.
Falta-nos capacidades intelectivas para tal.  A Física Quântica e, antes dela, o Espiritismo, descortinam novos horizontes para que o Espírito apreenda outros paradigmas em sua caminhada.  Estudar, conhecer, vivenciar e divulgar o Espiritismo é estar conscientemente participando da ampliação do trabalho de Deus, tornando-se legítimo co-Criador.


  
Adenáuer  Novaes  é  Psicólogo  Clínico, residente  no  Brasil.  É  um  dos  diretores  da Fundação Lar Harmonia - Salvador-BA.

Jornal de Estudos Psicológicos
Ano II N° 6  Setembro e Outubro 2009  
The Spiritist Psychological Society