Revista Espírita
Jornal de Estudos Psicológicos
Quinto Ano – 1862
Março
Os Espíritos e o brasão
Revista Espírita, março de 1862
Um outro sistema poderia, em aparência, conciliar as exigências do amor-próprio com o princípio da não-reencarnação: é aquele pelo qual o pai não transmite ao filho só o corpo, mas também uma porção de sua alma; de tal sorte que, se descendeis de Charlemagne, vossa alma poderia ter sua estirpe na sua. Muito bem; mas, vejamos a que consequências chegaremos. A alma de Charlemagne, em virtude desse sistema, teria sua estirpe na de seu pai, e assim de pai em pai, até Adão. Se a alma de Adão é o tronco de todas as do gênero humano, cada uma transmite, ao seu sucessor, uma porção de si mesma, as almas atuais seriam o produto de um fracionamento que ultrapassaria todas as subdivisões homeopáticas. Disso resultaria que a alma do pai comum deveria ser mais completa, mais inteira do que a de seus descendentes; disso resultaria ainda que Deus não teria criado senão uma única alma, subdividindo-se ao infinito, e que assim cada um de nós não seria uma criatura direta de Deus. Esse sistema deixaria, aliás, um imenso problema a resolver: o das aptidões especiais. Se o pai transmitisse ao seu filho os princípios de sua alma, transmitir-lhe-ia, necessariamente, suas virtudes e seus vícios, seus talentos e suas inépcias, como lhe transmitiria certas enfermidades congênitas. Como, então, explicar por que homens virtuosos, ou de gênio, têm filhos maus indivíduos ou cretinos, e vice-versa?
Por que uma linhagem estaria misturada de bons e de maus? Dizei, ao contrário, que cada alma é individual, e tem sua existência própria e independente, que progride, em virtude de seu livre arbítrio, por uma série de existências corpóreas em cada uma das quais adquire alguma coisa de bom e deixa alguma coisa de mal, até que tenha atingido a perfeição, e tudo se explica, tudo concorda com a razão, com a justiça de Deus, mesmo em proveito do amor-próprio.
O Sr. Salgues (de Angers), de quem falamos em nosso último número, não é partidário da reencarnação. Desde o aparecimento de O Livro dos Espíritos, nos escreveu uma longa carta na qual combatia essa doutrina com argumentos baseados sobre a sua incompatibilidade com os laços de família. Nessa carta, datada de 18 de setembro de 1857, dá-nos sua genealogia remontando, sem interrupção, aos Carlovingiens, e nos pergunta o que se torna essa gloriosa filiação com a mistura dos Espíritos pela reencarnação. Dela extraímos a passagem seguinte:
"Mas de que serviriam, pois, os quadros genealógicos? Tenho o meu, completo, regular, de uma parte, desde os ancestrais de Charlemagne, e, de outra, desde a filha do emir Muza, um dos descendentes abassidas de Maomé, décima geração, pelo seu casamento com Garcia, príncipe de Navarra, pai, com ela, de Garcia Ximenes, rei de Navarra, e enfim essa genealogia continuou, por meio de alianças, por soberanos de quase todas as cortes da Europa, até a época de Alfonso VI, rei de Castela, depois nas casas de Comminges, de Lascaris Vintimille, de Montmorency, de Turenne e, enfim, dos condes e senhores Falhasse de Salgues, em Languedoc; o que pode ser verificado em A arte de verificar as datas, os Beneditinos de Saint-Maur, noDicionário da nobreza de França, em o Armorial, no padre Anselme, Noreri, etc. Mas, se não temos de nossos pais de outro modo senão pela matéria carnal que recebeu nosso Espírito, não há, por toda parte, lacunas, notáveis soluções de continuidade? É um caminho traçado sobre a areia que se perde em cem lugares. Que nos seja, pois, permitido crer que, se o Espírito não se transmite, a alma está para o homem o que o aroma está para a flor. Ora, Swedenborg não disse, nos Arcanos, que não há nada perdido na Natureza? E que o aroma das flores reproduz novas flores em outras regiões que não a de onde saiu? É, pois, pela alma, que não é o Espírito, que existiria uma cadeia talvez semi-espiritual de gerações. Se meu Espírito pudesse saltar oito ou dez gerações, de vez em quando, onde reconheceria meus antepassados?"
O Sr. Salgues, como se vê, prende-se a não proceder senão do corpo; mas como conciliar as relações de Espírito a Espírito com a não preexistência da alma? Se houvesse entre eles, na filiação, relações necessárias, como o descendente de tantos soberanos seria hoje um simples proprietário anjuvino? Não é, aos olhos do mundo, uma retrogradação? Não colocamos em dúvida a autenticidade da sua genealogia, e o felicitamos por isso, uma vez que isso lhe dá prazer, mas não lhe diremos menos que o estimamos mais por suas virtudes pessoais do que por aquelas de seus antepassados.
A autoridade de Swedenborg é aqui muito contestável quando atribui, ao aroma das flores, sua reprodução; esse azeite essencial, volátil que dá o aroma, jamais teve a faculdade reprodutora, que reside só no pólen. Falta exatidão, pois, à comparação; porque se a alma não faz senão influenciar, pelo seu perfume, sobre a alma que lhe sucede, não a criou; no entanto, deveria transmitir-lhe suas próprias qualidades, e, nessa hipótese, não veríamos porque o descendente de Charlemagne não teria enchido o mundo do brilho de suas ações, ao passo que Napoléon não se apoiaria senão sobre uma alma vulgar. Que se diga que Napoléon descende de Charlemagne, ou melhor ainda, foi Charlemagne, que veio no século XIX continuar a obra começada no século XVIII, será o compreendido; mas, com o princípio de unicidade de existência, nada liga Charlemagne aos seus descendentes, se isso não é o aroma transmitido de pais em pais sobre as almasnão criadas; e, então, como explicar porque, entre seus descendentes houve tantos homens sem valor e indignos, e por que Napoléon é um gênio maior que seus antepassados obscuros? O que quer que se faça, sem a reencarnação, choca-se a cada passo contra dificuldades insolúveis que só a preexistência da alma resolve de maneira ao mesmo tempo simples, lógica e completa, uma vez que dá razão a tudo.

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